A política chinesa de manter sua moeda artificialmente desvalorizada surtiu efeito. As exportações da China para os Estados Unidos recuaram menos que as vendas de outros países, como o Brasil.
A política chinesa de manter sua moeda artificialmente desvalorizada surtiu efeito. As exportações da China para os Estados Unidos recuaram menos que as vendas de outros países, como o Brasil.
A competição desleal provoca protesto ao redor do mundo e o governo brasileiro engrossou o coro.
De janeiro a setembro, as vendas chinesas para os EUA caíram 15%, conforme dados do Departamento de Análises Econômicas do governo americano, organizados pelo JP Morgan. No período, a moeda chinesa, o yuan, praticamente não variou em relação ao dólar.
O real, em contrapartida, valorizou-se 35%, comparado ao dólar de janeiro a outubro. A retração da demanda americana e o câmbio forte provocaram queda de 37% das exportações brasileiras para os Estados Unidos de janeiro a setembro, conforme o governo americano.
Os dados brasileiros mostram uma queda ainda mais expressiva das vendas para os EUA. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, o Brasil vendeu 45% menos para os EUA de janeiro a outubro, em relação a igual período de 2008.
A política monetária chinesa é hoje uma das principais ameaças à recuperação do comércio global. No início da crise, a China puxou a recuperação, com seu apetite por commodities. Agora, o yuan fraco pode ter efeito contrário, provocando uma nova onda protecionista.
Praticamente todos os países enfrentam o mesmo problema do Brasil. O euro subiu 7% em relação ao dólar, tornando as exportações europeias menos competitivas. As vendas da Austrália para os EUA caíram 29% de janeiro a setembro. No caso da África do Sul, o recuo chega a 51%. Assim como o Brasil, esses dois países são ricos em commodities e suas moedas se valorizaram muito.
“Essa é uma discussão de desequilíbrio global, que vai muito além do Brasil. Mas, no caso brasileiro, a apreciação cambial é deletéria, porque o País vende produtos manufaturados para os EUA, assim como a China”, disse o economista do JP Morgan, Julio Callegari.
O problema da desvalorização artificial da moeda chinesa é antigo e já foi alvo de muitas reclamações dos Estados Unidos. Mas piorou com a crise. Antes da turbulência, os chineses vinham valorizando lentamente a sua moeda, cerca de 7% ao ano desde meado de 2005.
Com a queda da demanda dos EUA, voltaram a atrelar o yuan ao dólar, para não perder competitividade e provocar desemprego. O problema é que o dólar perdeu valor e o yuan foi junto. Na prática, equivale a uma desvalorização da moeda da China.
Com poucos instrumentos para atenuar o fortalecimento do real, o governo brasileiro também começou a reclamar da China. Na última reunião do G-20, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu um padrão único de gestão do câmbio e criticou os chineses.
“O controle cambial na China gera desequilíbrios em todo o mundo. Em um momento de redução da demanda global, os chineses ocupam mais o espaço do Brasil no mercado externo”, disse o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral.
APLAUSOS E PROTESTOS
A atitude do governo provocou aplausos e protestos na indústria brasileira. Setores que enfrentam a competição dos chineses apoiam a intervenção do governo. As empresas que vendem commodities à China estão preocupadas com a falta de prioridade dada ao país asiático.
“O governo não deve colocar a moeda chinesa como prioridade na agenda. Deixa para os países grandes, como os Estados Unidos, fazerem isso. Nós precisamos construir uma agenda positiva”, disse o secretário executivo do Conselho Brasil-China, Rodrigo Maciel, entidade que reúne empresas com negócios nos dois países.
Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo Neto, essa movimentação pode atrapalhar a abertura do mercado chinês para produtos brasileiros. “Os americanos reclamam a anos e os chineses não se mexem.”
O principal argumento desses setores é que a China garantiu o superávit da balança comercial brasileira na crise. De janeiro a outubro, as exportações do Brasil para a China cresceram 18,8% – o único aumento entre os grandes mercados.
Setores que enfrentam a concorrência chinesa apoiam o governo. “A China pratica dumping cambial. A postura do governo é corretíssima. Já era um problema antes da crise. Agora ficou escandaloso”, disse o diretor do departamento de comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca.
Um estudo feito pela Fiesp apontou que os preços dos produtos chineses importados pelo Brasil, em reais, caíram entre 15% e 25% desde o início do ano, por causa da valorização do real. Giannetti da Fonseca é favorável a medidas mais radicais que começam a ser cogitadas nas discussões internacionais, como todos os países aplicarem uma tarifa contra a China por causa do câmbio.
Fonte: O Estado de S. Paulo – SP