BC chinês admite defasagem cambial

Novembro 12, 2009

O Banco Central da China reconheceu existir argumentos para uma valorização do yuan. Isso ocorre pouco antes da chegada do presidente dos EUA, Barack Obama, que deverá pressionar o país a rever sua política cambial.

O Banco do Povo da China (BC) disse que a política cambial deve levar em conta “os fluxos de capital e os principais movimentos cambiais”, uma referência à grande entrada de capital especulativo que o país vem recebendo e à fragilidade do dólar.

Os comentários do BC, incluídos em seu relatório trimestral sobre política monetária, contrastam com a posição defendida pelo ministro do Comércio chinês, Chen Deming, durante o fim de semana. Ele disse que a taxa de câmbio deveria “criar expectativas estáveis” para os exportadores.

A afirmação do ministro pode indicar que a posição do BC ainda teria de ganhar apoio nos principais escalões do governo.

Segundo economistas, os comentários do BC dariam a ele mais flexibilidade, mas não significariam necessariamente que o governo poderia mudar de política no curto prazo. Poucos analistas esperam que a China abandone antes de meados de 2010 o atrelamento ao dólar que existe de fato.

Para Ben Simpfendorfer, economista do RBS em Hong Kong, o BC chinês “deu sinais de que reconhece as pressões por valorização, mas eu contrabalançaria isso com os comentários do ministro sobre a necessidade de estabilidade cambial”.

Ontem, em Tóquio, o secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, reiterou a importância de um dólar mais forte. “Eu acredito profundamente ser muito importante para a saúde econômica dos EUA que mantenhamos o dólar forte”, disse ele.

A moeda americana caiu ontem para seu mais baixo patamar em 15 meses, o que alimentou as preocupações sobre seu futuro como uma reserva cambial global.

A declaração do BC chinês coincide com a divulgação de uma série de novos dados que indicam a aceleração da recuperação econômica, com o aumento da produção industrial a um ritmo não visto desde antes do início da crise financeira mundial. As vendas de varejo também cresceram fortemente.

Além disso, espera-se que Obama discuta a situação da moeda chinesa em sua visita ao país no início da semana que vem. “[O tema] moeda, junto a uma série de outros temas, surgirá”, disse Obama anteontem.
Fonte: Valor Econômico


Câmbio flutuante entra na agenda

Novembro 9, 2009

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL, SAINT ANDREWS, ESCÓCIA
Segundo Henrique Meirelles, sugestão brasileira de discutir o desequilíbrio cambial foi acatada no G-20

A sugestão do governo brasileiro de incluir a volatilidade cambial nas discussões do G-20 sobre os desequilíbrios econômicos foi acatada pelos ministros reunidos em Saint Andrews, na Escócia. Quem assegura é o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Ele ressaltou, no entanto, que a proposta será discutida dentro dos debates sobre Desenvolvimento Sustentável do G-20, e que nada garante que haverá padronização do sistema de câmbio flutuante, defendida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. “O Brasil levantou de fato a questão dos desequilíbrios cambiais”, afirmou Meirelles, e o tema “foi incluído entre as políticas que serão discutidas”.

A proposta brasileira entra, assim, no escopo de medidas que serão discutidas ao longo de 2010. O foco central dos debates é eliminar os desequilíbrios econômicos internacionais, como o consumo excessivo em países como os Estados Unidos, e o crescimento baseado em exportações em economias como a da China e a da Alemanha.

RESPONSABILIDADE FISCAL

Pela agenda aprovada ontem, em janeiro os países-membros do G-20 apresentarão seus relatórios de “boas práticas” econômicas. O Brasil, diz Meirelles, relatará políticas como a responsabilidade fiscal, a política cambial e a formação de reservas, além de reportar indicadores econômicos.

De posse dos relatórios de todos os países, os corpos técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial vão elaborar um relatório com a análise da consistência e da coerência de cada política. Em junho, quando for realizada a reunião de cúpula no Canadá, o G-20 vai apresentar um rol de “boas práticas” aos líderes políticos, que terão a opção de adotar ou não as sugestões.

Além da agenda, outro tema tratado foram os pacotes de estímulo. De acordo com o comunicado final da reunião, os ministros concordaram com a necessidade de manutenção dos incentivos à recuperação da atividade econômica. Na quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) já havia antecipado que planeja o início do fim das medidas extraordinárias.
Fonte: O Estado de São Paulo


Brasil quer câmbio flutuante no G-20

Novembro 6, 2009

O governo brasileiro vai defender hoje, na reunião ministerial do G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), na Escócia, um padrão único de gestão do câmbio por todas as maiores economias do mundo. Mais: pregará que o modelo escolhido seja o câmbio flutuante, adotado pelo País desde 1999. O objetivo é “homogeneizar” o fluxo global de moeda, evitando a sobrevalorização excessiva, da qual o real tem sido vítima nos últimos meses, se comparado com o dólar, o yuan e até o euro. A iniciativa tem como alvo maior a China, que atrela a valorização da moeda ao dólar.

 

As revelações foram feitas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, no fim da manhã de ontem, em Londres, em meio ao seminário FT Investing in Brazil Summit. A ideia do ministro é adicionar à proposta dos Estados Unidos, que incluía a regulação dos desequilíbrios comerciais e o acúmulo de reservas, o que chama de “desequilíbrios de câmbio”. “Temos um desequilíbrio cambial porque os países têm comportamentos diferenciados em relação ao câmbio. Alguns, como o Brasil, praticam o câmbio flutuante, enquanto outros praticam a administração cambial. Vamos sugerir mais homogeneidade. Ou todo mundo pratica o câmbio administrado, ou todo mundo pratica o câmbio flutuante.”

 

De acordo com Mantega, a delegação brasileira – que terá a participação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles – defenderá a escolha do câmbio flutuante. “O Brasil já se deu mal com o câmbio administrado. O câmbio flutuante tem vantagens, porque permite ao mercado regular melhor o fluxo de capitais.” O ministro também afirmou que o atual cenário cambial internacional, misto, “pode ser benéfico para alguns países, mas prejudicial para outros”. “Neste momento, quem mais se prejudica são os países mais sólidos, que oferecem maiores oportunidades de investimento, de rendimento e de perspectiva de commodities”, uma alusão ao Brasil. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: G1


Lula quer unir BC e Fazenda no câmbio

Novembro 6, 2009

Adriana Fernandes e Fabio Graner, Brasília
No primeiro embate entre os dois na questão cambial, presidente reforçou a posição da Fazenda
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer uma ação mais coordenada entre Banco Central e Ministério da Fazenda nas discussões e ações de política cambial. No primeiro embate entre as duas áreas de governo, Lula reforçou a posição da Fazenda, que, na prática, divide com o BC a gestão da política cambial. Lula deseja evitar descompassos que possam resultar em incertezas em relação à política brasileira de atração de capitais externos.

A orientação de Lula não muda. Ele quer manter os estímulos aos capitais de longo prazo que entram no País para investimento, mas não concorda com a avalanche de recursos apenas em busca do ganho financeiro. A percepção do governo é que não há uma medida única capaz de resolver o imbróglio cambial. Por isso, uma sintonia entre BC e Fazenda nas decisões passou a ser indispensável.

Segundo a Agência Estado apurou, Lula foi informado de que até dados importantes para avaliar o quadro econômico não são trocados entre as equipes do BC e da Fazenda. Essa situação desagrada o presidente porque pode tornar mais custoso o processo de transição do real ao nível de moeda mais forte no cenário internacional. O governo sabe que a questão é complexa até porque o real forte é uma realidade.

Economistas do governo dizem que medidas isoladas podem não fazer grande diferença, mas em conjunto podem reduzir a pressão de valorização do real. O que diferencia o debate atual é a tendência de a Fazenda atuar por medidas pontuais, de caráter mais intervencionista, enquanto as medidas do BC vão buscam a desregulamentação das normas cambiais e aceleração dos acordos internacionais de pagamento com moeda local, como está sendo discutido com China, Rússia e Índia.

Ao autorizar Mantega a taxar o ingresso de capitais com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), Lula fortaleceu a ação do ministério na coordenação das expectativas em relação à condução da política cambial, antes reservada ao BC. Com a possibilidade de “calibrar” para baixo ou para cima a alíquota do IOF, a Fazenda, segundo setores do governo e do mercado, pode anular o poder do BC na administração da volatilidade do câmbio.

Segundo uma fonte da Fazenda, a falta de coordenação das políticas cambiais dos vários países força o governo a ter uma atitude mais intervencionista – mas sem mudar o regime. “O câmbio é flutuante”, disse a fonte. Mas a avaliação é que um sistema de flutuação pura só tem sentido quando todos países operam da mesma forma. A China tem taxa administrada e desvalorizada e o dólar está em queda desde que a crise se acalmou. Por isso, Mantega vai defender na reunião do G-20, neste fim de semana na Escócia, uma maior articulação entre os integrantes do grupo. O ministro e sua equipe sabem que a proposta é de difícil execução.

“Não podemos assistir passivamente à queda do dólar ante o real. O Brasil defendeu a economia. Sem o IOF, o câmbio estaria indo para R$ 1,40. Estava ocorrendo uma bolha, um processo especulativo”, disse a fonte.

A fonte destaca que o governo não tem meta para o câmbio, como setores do mercado interpretaram as declarações do secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa, que estimou uma taxa de câmbio de equilíbrio para o dólar em torno de R$ 2,10 ou R$ 2,12. Embora diga que na Fazenda ninguém “ficaria triste” se essa fosse a taxa hoje, ela é considerada apenas um “exercício acadêmico”, e não um alvo.
Fonte: O Estado de São Paulo


‘Brasil aprendeu com erros do passado’

Novembro 6, 2009

Economista elogia medidas do governo para conter real, mas diz que ideias do BC para câmbio podem levar à dolarização
José Luís Oreiro: professor da UnB
O professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro defende as medidas do governo para conter a valorização do real.

Até agora, o IOF de 2% foi insuficiente para provocar uma valorização do dólar ante o real. A alíquota é baixa ou são necessárias outras medidas complementares?

Essa medida é incompleta. Faltam outras coisas. Uma medida complementar importante seria o Banco Central baixar uma norma limitando a exposição cambial dos bancos brasileiros. Hoje, esses bancos estão atuando para puxar a cotação do dólar para baixo.

O Banco Central prepara mudanças na legislação cambial. Esse tipo de medida pode ajudar a conter a valorização do real?
Pelo que vi até agora, as medidas estudadas pelo Banco Central vão justamente na direção contrária do que o Ministério da Fazenda e economistas como eu pensamos. O que o BC pensa é aumentar o grau de abertura da conta de capitais brasileira. Por exemplo: permitir que estrangeiros tenham depósitos em dólar no Brasil. Isso é inócuo sobre a taxa de câmbio. Esse tipo de medida é apenas um passo no caminho da dolarização da economia brasileira, do abandono do real como moeda nacional.

Taxar com IOF renda variável foi um equívoco?
Não, foi correto. É preciso que os controles de capitais sejam abrangentes. Para evitar e reduzir os “dribles” da legislação, é preciso fazer um controle abrangente. Portanto, taxar a renda variável é uma atuação nesse sentido.

Isso não pode afugentar captações de empresas?
Dizer que um impostozinho de 2% vai ter impacto significativo sobre o investimento no Brasil é balela. Além disso, vários estudos empíricos têm demonstrado que a poupança externa tem impacto negativo sobre o crescimento de longo prazo.

O Brasil não está pagando o preço do próprio sucesso e, por isso, não é um contrassenso adotar esse tipo de medida?
O sucesso pode trazer as raízes de sua própria destruição. Temos de ter cuidado porque, geralmente, nas fases em que a economia vai bem, vão se introduzindo “vírus” que vão preparando uma crise. Era esse perigo que o Brasil corria com a valorização do câmbio. Se a gente ver a história de todos os países da América Latina dos anos 70 para cá, vemos um padrão similar: mudança favorável de expectativas, entrada brutal de capitais, valorização do câmbio, aumento artificial do salário real e bolha de consumo. Enfim, euforia. Até que chega o momento, quando o déficit em conta corrente está elevado, de nova mudança de expectativas, só que para o outro lado. Aí vem a parada súbita de financiamento externo e crise no balanço de pagamentos. Parafraseando o ex-ministro Antonio Palocci, o Brasil aprendeu, não vai cometer os mesmos erros do passado.
Fonte: O Estado de São Paulo


Meirelles propõe mudança no marco regulatório cambial brasileiro

Novembro 4, 2009

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou ontem que a modernização do marco regulatório cambial brasileiro pode passar por mudanças na lei que rege o sistema. Nesse caso, haveria a necessidade de preparação de um projeto a ser encaminhado ao Congresso.

Conforme Meirelles, a alteração da lei é uma das possibilidades, juntamente com medidas a serem tomadas pelo Banco Central, Conselho Monetário Nacional (CMN) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “O processo está no início e ainda não temos respostas”, afirmou a jornalistas, após palestra na Universidade de Oxford.

No momento, o BC está enviando ao Congresso um projeto para alterar a Lei 4.131 nos pontos que tratam da liquidação e recuperação de bancos. O presidente do Banco Central disse que o objetivo das mudanças no marco cambial está voltado para o longo prazo, e não para administração imediata da taxa de câmbio. “Um sistema mais eficiente cria uma base mais estável para o crescimento do PIB no futuro.”

Segundo ele, a intenção é modernizar o sistema, feito no passado para um ambiente que visava a impedir a saída de dólares. Meirelles voltou a afirmar que preferiu anunciar a intenção do BC sobre o assunto para garantir a transparência e impedir especulações.

Conforme Meirelles, as operações de carry trade, que acabam estimuladas pelo diferencial de juros entre os países, não são relevantes para o fluxo ao Brasil neste momento. As principais fontes de entrada de recursos, reiterou, são os investimentos externos diretos e o mercado de ações.

Sobre a taxação de IOF ao capital externo, o ministro Henrique Meirelles reafirmou que “não comenta medidas fiscais”. O papel do BC, segundo ele, é o de administrar as reservas e tratar da regulação do sistema cambial.

Fonte: Jornal do Comércio (RS)


Comércio Brasil-China pode adotar real e yuan

Novembro 4, 2009

Uso de moeda local vigora com a Argentina; País pretende agora estendê-lo aos BRICs.

O Brasil e a China já oficializaram a criação de um grupo de trabalho para viabilizar a implantação de um sistema de pagamento em moeda local. Maior parceiro comercial do Brasil, a China já está fazendo estudos sobre a demanda interna para esse tipo de sistema de pagamento, que permite a substituição do dólar norte-americano no comércio bilateral.

A avaliação no governo brasileiro é de que os impactos da desvalorização do dólar no comércio exterior podem ser diluídos por meio de negócios com moedas locais. O Brasil já fechou acordo com a Argentina, negocia com o Uruguai, e tenta avançar agora nas negociações com seus parceiros do Bric: Rússia, Índia e China. As negociações acontecem em meio ao debate internacional de busca de alternativas ao dólar como principal moeda de troca no comércio mundial. Nesse cenário, o euro e as moedas de commodities (de grandes exportadores de commodity) podem ganhar espaço.

A criação de um sistema de pagamento em moeda local deverá ser discutida durante encontro do Bric, que acontecerá paralelamente à reunião de ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais do G-20 (maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento). A reunião do G-20 está marcada para o final desta semana em Saint Andrews, na Escócia, no aniversário de dez anos do primeiro encontro do grupo.

A diretora de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil, Maria Celina Berardinelli Arraes, avaliou que esses sistemas mitigam o risco cambial para os exportadores, que passam a saber exatamente quanto vão receber nas suas vendas para o exterior.

A diretora informou que partiu do governo chinês a proposta de criação do grupo de trabalho. Por enquanto, as negociações com os parceiros do Bric ainda estão em estágio embrionário, mas a “vitrine” que o Brasil tem para mostrar é o sistema já implementado com a Argentina, que entrou em operação em outubro do ano passado, no auge da crise internacional.

Integrantes do governo da Rússia já conheceram in loco, no final de outubro, o sistema com a Argentina, durante visita a Brasília. Segundo a diretora do BC, os chineses têm uma experiência de comércio com moeda local na fronteira com a Rússia, mas num modelo muito diferente.

O maior desafio para as negociações com o Bric é a complexidade das economias (a Índia, por exemplo, tem estrutura de câmbio controlado). Mas também há muitas diferenças culturais e regulatórias que precisam ser melhor conhecidas pelos países, necessidade que já não acontece com os parceiros vizinhos do Mercosul. Um exemplo dessa dificuldade, contou a diretora, é de que havia uma percepção inicial de que a proposta de criação de um sistema de pagamento tratava-se de financiamento de comércio.

A Rússia, ressaltou ela, teve experiências não muito boas com financiamento de comércio. “Estamos na fase de conhecer as normas, a legislação dos países”, disse a diretora, que preferiu não arriscar prazos para as negociações com os países do Bric. Com o Uruguai, a expectativa do BC é que o sistema deverá estar em funcionamento no segundo trimestre do ano que vem.

Se formalizado o acordo com a China, os exportadores dos dois países poderão liquidar as suas operações em real ou em yuan (a moeda chinesa). De acordo com Maria Celina, uma das vantagens do uso de moedas locais nas operações bilaterais de compra e venda é a redução de custos da operação, já que não há o pagamento da comissão na conversão de uma terceira moeda – no caso, o dólar, que é a moeda comercial em todo o mundo. O sistema também provoca aumento de liquidez e de eficiência do mercado de câmbio nas moedas locais.

Fonte: Jornal do Comércio (RS)


Dados de exportações e importações sofrem influências do câmbio, diz secretário

Novembro 3, 2009

Brasília – O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Welber Barral, apontou hoje (3) uma “relativa recuperação” nos dados de exportação e importação, mas disse que o processo sofre em decorrência do câmbio. A expectativa, porém, é que a economia nacional se recupere em novembro e dezembro, com o aumento da comercialização de insumos.

“Tem gente dentro do governo que acha que dá para resolver com medidas ortodoxas. Não tem como resolver com medidas ortodoxas uma situação é completamente heterodoxa, como o controle cambial da China”, afirmou Barral, que viaja hoje (3) para os Estados Unidos para retomar a agenda bilateral no esforço de incrementar o comércio.

Segundo Barral, o governo federal tomou uma decisão “bastante acertada” em relação à decisão de cobrar 2% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) do capital externo que entra no país para investir em ações ou títulos irá atingir também alguns investidores que já estavam no país antes da medida.

”Mas precisamos ver os efeitos disso a médio prazo”, afirmou o secretário, contrariando as afirmações do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, que criticou a medida. Segundo o ministro, a cobrança de IOF não resolverá os problemas do exportador.

Paralelamente o governo federal resolveu concentrar as atenções no incremento do comércio com os Estados Unidos. A decisão foi tomada depois que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior concluiu que houve queda nas exportações com perda de espaço para a China.

“Perdemos por causa da crise e não estamos conseguindo recuperar. Uma das razões é o câmbio”, disse Barral. “É preciso investir mais no mercado norte-americano. Nós continuamos com todas as ações com promoção comercial e temos retomando a agenda com o governo dos Estados Unidos.”

O saldo (superavit) da balança comercial brasileira registrou crescimento de 7,5% no acumulado do ano até o dia 31 de outubro, com US$ 22,599 bilhões. O saldo do mês passado é praticamente o mesmo registrado ao mesmo período de 2008, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Houve aumento de vendas dos produtos semimanufaturados, como açúcar, recuperação dos industrializados e queda dos básicos.

As exportações de janeiro a outubro foram de US$ 125,879 bilhões e as importações, de US$ 103,280 bilhões. Na média por dia útil, no período, as exportações ficaram em US$ 605,2 milhões com queda de 24,6% com o mesmo período do ano passado e as importações, US$ 496,5 também em queda, registraram 29,4% na mesma comparação.

Em outubro, o saldo da balança comercial ficou em US$ 1,328 bilhão com exportações de US$ 14,082 bilhões e importações de US$ 12,754 bilhões. O saldo registrou média diária de US$ 63,3 milhões. Segundo Barral, os dados de outubro são “muito similares” aos de setembro.

Fonte: Agência Brasil


Câmbio e equilíbrio

Novembro 3, 2009

Dizem que o sistema de churrascaria rodízio foi inventado no Brasil, nas margens das rodovias do Sul, na década de 60. O apelo é a ausência de limite, a não ser o da própria saciedade. É o inverso do “you can’t eat your cake and have it too”, uma expressão em inglês, que indica: se comer, não tem mais. No Brasil, o atual viés é comer e esperar mais, como no rodízio.

Explico. O Brasil quer investir e consumir mais, tanto no setor público como no privado. E, pelo ritmo atual, bem mais. Para que isso seja possível simultaneamente, há a necessidade de financiamento externo.

O que significa influxos de capital, apreciação cambial e déficits externos. Mas tais consequências são indesejadas por muitos.

Colocam-se barreiras aos fluxos de capital, esperando conter a apreciação e os déficits. Mas o consumo público e privado continua sendo estimulado, o que requer os mesmos déficits que se deseja evitar.

O contexto internacional reforça esse dilema. Tudo indica que o Brasil está tendo um novo papel global. É uma economia com vistas a um crescimento acelerado do seu mercado doméstico, num mundo onde o consumidor global deve retrair-se. A perspectiva de um crescimento maior do mercado doméstico abre uma nova fronteira de oportunidades para investimentos. Isso atrai novos empreendedores locais, assim como investimentos estrangeiros. Ao mesmo tempo, a riqueza internacional está em busca de oportunidades nos mercados emergentes, agora que a crise global deve colocar limites ao crescimento nas economias maduras (as elevadas dívidas públicas devem limitar o crescimento potencial, e o sistema financeiro internacional mais regulado deve ter mais dificuldade de reduzir a disponibilidade de crédito — a chamada “desalavancagem”).

O lado da demanda e o da oferta de recursos combinam, o que normalmente indica uma tendência.

E, nessa tendência, os déficits externos devem continuar aumentando.

Com crescimento mais forte no Brasil (por exemplo, 5,5%, em 2010) e com câmbio na faixa de R$ 1,70, o déficit deve elevar-se para 4% do PIB em dois a três anos. Uma boa parte desse déficit deve ser financiada com maiores ingressos de investimento direto (próximos de 3% do PIB). Fluxos de portifólio — para a bolsa, em emissões primárias ou não, e renda fixa — também devem continuar a entrar.

A lógica econômica global e local não significa que não haja opções de política econômica. Uma redução do crescimento do gasto público seria uma medida que alteraria o equilíbrio macroeconômico e permitiria mudanças permanentes na taxa de câmbio (mais controle sobre o gasto público, mais espaço para as exportações, via um câmbio mais depreciado).

Ou seja, uma mudança na taxa de câmbio no médio e longo prazo depende de alteração do atual equilíbrio macroeconômico: uma economia que deseja simultaneamente aumentar o gasto público, o consumo privado e os investimentos requer poupança externa (ou seja, déficit externo).

O câmbio (em termos reais) é apenas o veículo que a economia encontra para viabilizar esse déficit.

Portanto, existe, sim, a possibilidade de crescimento maior — sem déficits maiores ou câmbio mais apreciado — desde que se faça a opção política pela redução do crescimento dos gastos correntes, premiando a eficiência na provisão dos serviços públicos. É uma visão que leva em consideração o equilíbrio macroeconômico.

Em suma, o debate sobre a apreciação cambial reflete os conflitos que surgem neste novo contexto internacional: financiamento internacional abundante para economias que possuem grande potencial de crescimento dos mercados domésticos. Isso gera influxos de capital, apreciação cambial e aumento do déficit externo. O governo batalha para evitar excessos e bolhas. Existem instrumentos disponíveis de cur to prazo (como mais inter venção e a volta dos swaps cambiais), mas esses só são eficazes quando combinados com medidas que alterem o equilíbrio macroeconômico, como a redução do gasto público, que permite mudanças permanentes na taxa de câmbio e nos déficits externos

ILAN GOLDFAJN é economista-chefe do Itaú Unibanco.
Fonte: O Globo


Liberdade cambial?

Novembro 3, 2009

Erra-se muito na discussão do problema da taxa de câmbio no Brasil. Quando se afirma que “a taxa de câmbio ou é fixa ou é flutuante” e ainda se ensina que na segunda hipótese ela é determinada livremente no mercado pela oferta e procura de dólares, comete-se um equívoco que pode ter graves consequências para o desenvolvimento econômico do país.

A primeira proposição é obviamente falsa, como mostram as estatísticas do Fundo Monetário Internacional. Entre o sistema de câmbio fixo e o de taxas flutuantes existem tantos regimes quanto os números reais no conjunto fechado (0,1)!

É fato que um processo de seleção e o desenvolvimento das políticas econômicas têm levado a uma concentração nos sistemas de câmbio “flutuante”, mas estes envolvem dezenas de tipos de “intervenção”. No começo do segundo semestre de 2009, por exemplo, todos os Bancos Centrais do mundo (onde o câmbio flutua!) realizaram intervenções abertas ou em sigilo nos “mercados” para prevenir valorizações cambiais indesejadas naquele momento.

Os dois sistemas, ou “modelos”, são espécimes de entes platônicos que não encontram correspondência na realidade. Não existe nem o câmbio “rigorosamente fixo” nem o “absolutamente flutuante” (a não ser em instantes fugazes dos livros-texto) devido aos seus inconvenientes em momentos de crise.

A segunda afirmação, que no câmbio flutuante a taxa é determinada livremente no mercado pela oferta e procura, revela apenas ignorância, no sentido honesto da palavra que significa “precariedade de conhecimento”. Ela omite a questão fundamental que é saber: “Quem constrói o mercado?” Ou melhor, quem constrói a “oferta” e a “procura” de dólares?

É preciso distinguir dois mercados. Um de bens e serviços (exportação e importação) em que as transações têm maiores consequências sobre o nível de emprego da economia. Nele se geram as divisas para pagar as importações de bens de consumo, de capital, de tecnologia e dos bens intermediários que abrem as perspectivas de novos investimentos e retroalimentam o desenvolvimento.

Quando há limites para o movimento de capital financeiro, mas liberdade para investimento direto, este mercado “comercial” estabelece uma taxa de câmbio capaz de manter em relativo equilíbrio o saldo em conta corrente e, portanto, o endividamento externo.

Quando há maior liberdade de movimento de capitais cria-se um mercado “financeiro”, muito mais ágil e musculoso na especulação e na arbitragem que envolve toda a sorte de “inovações”. Neste mercado global, que incorpora o comercial e o financeiro, a taxa de câmbio (ou melhor, o dólar) transforma-se num ativo financeiro cujo preço se ajusta instantaneamente, independentemente das condições do mercado “comercial”. É por isso que pode haver uma divergência entre taxa de câmbio “comercial” que acelera o crescimento econômico e sustenta o emprego e a taxa de câmbio “global”. Esta obedece às conveniências da especulação e da arbitragem financeira, dependendo do lucro que oferece aos agentes.

Quem comanda esse movimento financeiro e constrói, portanto, a oferta global? São as expectativas que se formam sobre a evolução da economia e da própria taxa de câmbio, além das diferenças entre as taxas de juros reais internas e externas.

O fluxo de capitais que valoriza ou desvaloriza a taxa de câmbio depende, como é evidente, das diferenças de retorno que um dólar pode obter no mercado financeiro externo e a diferença o que ele obtém seguramente no generoso mercado financeiro brasileiro.

É usual no Brasil proporcionar ao investidor estrangeiro retornos de até 5% ao mês em dólares. Há quanto tempo isso funciona nas aplicações em nossa eficiente BMF/Bovespa, contra os 2% anuais nos Estados Unidos? É um movimento que se autoalimenta valorizando o câmbio, com forte desestímulo aos investimentos no setor exportador da indústria brasileira.

As exportações brasileiras cresceram 3,2% ao ano entre 1995 e 1998 e em média 8% entre 1999/2002, quando acumulamos dívida, um pesado déficit em conta corrente de US$ 80 bilhões. A partir de 2003 as exportações reagiram, no embalo da espetacular expansão do comércio mundial e até 2008 a média anual de crescimento foi de 22%, muito em função dos bons preços da agropecuária e dos produtos minerais. A condição dos preços das commodities agrícolas já não é a mesma, enquanto as exportações industriais seguem vitimadas pela persistência da sobrevalorização cambial.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
Fonte: Valor Econômico