Dados de exportações e importações sofrem influências do câmbio, diz secretário

Novembro 3, 2009

Brasília – O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Welber Barral, apontou hoje (3) uma “relativa recuperação” nos dados de exportação e importação, mas disse que o processo sofre em decorrência do câmbio. A expectativa, porém, é que a economia nacional se recupere em novembro e dezembro, com o aumento da comercialização de insumos.

“Tem gente dentro do governo que acha que dá para resolver com medidas ortodoxas. Não tem como resolver com medidas ortodoxas uma situação é completamente heterodoxa, como o controle cambial da China”, afirmou Barral, que viaja hoje (3) para os Estados Unidos para retomar a agenda bilateral no esforço de incrementar o comércio.

Segundo Barral, o governo federal tomou uma decisão “bastante acertada” em relação à decisão de cobrar 2% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) do capital externo que entra no país para investir em ações ou títulos irá atingir também alguns investidores que já estavam no país antes da medida.

”Mas precisamos ver os efeitos disso a médio prazo”, afirmou o secretário, contrariando as afirmações do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, que criticou a medida. Segundo o ministro, a cobrança de IOF não resolverá os problemas do exportador.

Paralelamente o governo federal resolveu concentrar as atenções no incremento do comércio com os Estados Unidos. A decisão foi tomada depois que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior concluiu que houve queda nas exportações com perda de espaço para a China.

“Perdemos por causa da crise e não estamos conseguindo recuperar. Uma das razões é o câmbio”, disse Barral. “É preciso investir mais no mercado norte-americano. Nós continuamos com todas as ações com promoção comercial e temos retomando a agenda com o governo dos Estados Unidos.”

O saldo (superavit) da balança comercial brasileira registrou crescimento de 7,5% no acumulado do ano até o dia 31 de outubro, com US$ 22,599 bilhões. O saldo do mês passado é praticamente o mesmo registrado ao mesmo período de 2008, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Houve aumento de vendas dos produtos semimanufaturados, como açúcar, recuperação dos industrializados e queda dos básicos.

As exportações de janeiro a outubro foram de US$ 125,879 bilhões e as importações, de US$ 103,280 bilhões. Na média por dia útil, no período, as exportações ficaram em US$ 605,2 milhões com queda de 24,6% com o mesmo período do ano passado e as importações, US$ 496,5 também em queda, registraram 29,4% na mesma comparação.

Em outubro, o saldo da balança comercial ficou em US$ 1,328 bilhão com exportações de US$ 14,082 bilhões e importações de US$ 12,754 bilhões. O saldo registrou média diária de US$ 63,3 milhões. Segundo Barral, os dados de outubro são “muito similares” aos de setembro.

Fonte: Agência Brasil


Câmbio e equilíbrio

Novembro 3, 2009

Dizem que o sistema de churrascaria rodízio foi inventado no Brasil, nas margens das rodovias do Sul, na década de 60. O apelo é a ausência de limite, a não ser o da própria saciedade. É o inverso do “you can’t eat your cake and have it too”, uma expressão em inglês, que indica: se comer, não tem mais. No Brasil, o atual viés é comer e esperar mais, como no rodízio.

Explico. O Brasil quer investir e consumir mais, tanto no setor público como no privado. E, pelo ritmo atual, bem mais. Para que isso seja possível simultaneamente, há a necessidade de financiamento externo.

O que significa influxos de capital, apreciação cambial e déficits externos. Mas tais consequências são indesejadas por muitos.

Colocam-se barreiras aos fluxos de capital, esperando conter a apreciação e os déficits. Mas o consumo público e privado continua sendo estimulado, o que requer os mesmos déficits que se deseja evitar.

O contexto internacional reforça esse dilema. Tudo indica que o Brasil está tendo um novo papel global. É uma economia com vistas a um crescimento acelerado do seu mercado doméstico, num mundo onde o consumidor global deve retrair-se. A perspectiva de um crescimento maior do mercado doméstico abre uma nova fronteira de oportunidades para investimentos. Isso atrai novos empreendedores locais, assim como investimentos estrangeiros. Ao mesmo tempo, a riqueza internacional está em busca de oportunidades nos mercados emergentes, agora que a crise global deve colocar limites ao crescimento nas economias maduras (as elevadas dívidas públicas devem limitar o crescimento potencial, e o sistema financeiro internacional mais regulado deve ter mais dificuldade de reduzir a disponibilidade de crédito — a chamada “desalavancagem”).

O lado da demanda e o da oferta de recursos combinam, o que normalmente indica uma tendência.

E, nessa tendência, os déficits externos devem continuar aumentando.

Com crescimento mais forte no Brasil (por exemplo, 5,5%, em 2010) e com câmbio na faixa de R$ 1,70, o déficit deve elevar-se para 4% do PIB em dois a três anos. Uma boa parte desse déficit deve ser financiada com maiores ingressos de investimento direto (próximos de 3% do PIB). Fluxos de portifólio — para a bolsa, em emissões primárias ou não, e renda fixa — também devem continuar a entrar.

A lógica econômica global e local não significa que não haja opções de política econômica. Uma redução do crescimento do gasto público seria uma medida que alteraria o equilíbrio macroeconômico e permitiria mudanças permanentes na taxa de câmbio (mais controle sobre o gasto público, mais espaço para as exportações, via um câmbio mais depreciado).

Ou seja, uma mudança na taxa de câmbio no médio e longo prazo depende de alteração do atual equilíbrio macroeconômico: uma economia que deseja simultaneamente aumentar o gasto público, o consumo privado e os investimentos requer poupança externa (ou seja, déficit externo).

O câmbio (em termos reais) é apenas o veículo que a economia encontra para viabilizar esse déficit.

Portanto, existe, sim, a possibilidade de crescimento maior — sem déficits maiores ou câmbio mais apreciado — desde que se faça a opção política pela redução do crescimento dos gastos correntes, premiando a eficiência na provisão dos serviços públicos. É uma visão que leva em consideração o equilíbrio macroeconômico.

Em suma, o debate sobre a apreciação cambial reflete os conflitos que surgem neste novo contexto internacional: financiamento internacional abundante para economias que possuem grande potencial de crescimento dos mercados domésticos. Isso gera influxos de capital, apreciação cambial e aumento do déficit externo. O governo batalha para evitar excessos e bolhas. Existem instrumentos disponíveis de cur to prazo (como mais inter venção e a volta dos swaps cambiais), mas esses só são eficazes quando combinados com medidas que alterem o equilíbrio macroeconômico, como a redução do gasto público, que permite mudanças permanentes na taxa de câmbio e nos déficits externos

ILAN GOLDFAJN é economista-chefe do Itaú Unibanco.
Fonte: O Globo


Liberdade cambial?

Novembro 3, 2009

Erra-se muito na discussão do problema da taxa de câmbio no Brasil. Quando se afirma que “a taxa de câmbio ou é fixa ou é flutuante” e ainda se ensina que na segunda hipótese ela é determinada livremente no mercado pela oferta e procura de dólares, comete-se um equívoco que pode ter graves consequências para o desenvolvimento econômico do país.

A primeira proposição é obviamente falsa, como mostram as estatísticas do Fundo Monetário Internacional. Entre o sistema de câmbio fixo e o de taxas flutuantes existem tantos regimes quanto os números reais no conjunto fechado (0,1)!

É fato que um processo de seleção e o desenvolvimento das políticas econômicas têm levado a uma concentração nos sistemas de câmbio “flutuante”, mas estes envolvem dezenas de tipos de “intervenção”. No começo do segundo semestre de 2009, por exemplo, todos os Bancos Centrais do mundo (onde o câmbio flutua!) realizaram intervenções abertas ou em sigilo nos “mercados” para prevenir valorizações cambiais indesejadas naquele momento.

Os dois sistemas, ou “modelos”, são espécimes de entes platônicos que não encontram correspondência na realidade. Não existe nem o câmbio “rigorosamente fixo” nem o “absolutamente flutuante” (a não ser em instantes fugazes dos livros-texto) devido aos seus inconvenientes em momentos de crise.

A segunda afirmação, que no câmbio flutuante a taxa é determinada livremente no mercado pela oferta e procura, revela apenas ignorância, no sentido honesto da palavra que significa “precariedade de conhecimento”. Ela omite a questão fundamental que é saber: “Quem constrói o mercado?” Ou melhor, quem constrói a “oferta” e a “procura” de dólares?

É preciso distinguir dois mercados. Um de bens e serviços (exportação e importação) em que as transações têm maiores consequências sobre o nível de emprego da economia. Nele se geram as divisas para pagar as importações de bens de consumo, de capital, de tecnologia e dos bens intermediários que abrem as perspectivas de novos investimentos e retroalimentam o desenvolvimento.

Quando há limites para o movimento de capital financeiro, mas liberdade para investimento direto, este mercado “comercial” estabelece uma taxa de câmbio capaz de manter em relativo equilíbrio o saldo em conta corrente e, portanto, o endividamento externo.

Quando há maior liberdade de movimento de capitais cria-se um mercado “financeiro”, muito mais ágil e musculoso na especulação e na arbitragem que envolve toda a sorte de “inovações”. Neste mercado global, que incorpora o comercial e o financeiro, a taxa de câmbio (ou melhor, o dólar) transforma-se num ativo financeiro cujo preço se ajusta instantaneamente, independentemente das condições do mercado “comercial”. É por isso que pode haver uma divergência entre taxa de câmbio “comercial” que acelera o crescimento econômico e sustenta o emprego e a taxa de câmbio “global”. Esta obedece às conveniências da especulação e da arbitragem financeira, dependendo do lucro que oferece aos agentes.

Quem comanda esse movimento financeiro e constrói, portanto, a oferta global? São as expectativas que se formam sobre a evolução da economia e da própria taxa de câmbio, além das diferenças entre as taxas de juros reais internas e externas.

O fluxo de capitais que valoriza ou desvaloriza a taxa de câmbio depende, como é evidente, das diferenças de retorno que um dólar pode obter no mercado financeiro externo e a diferença o que ele obtém seguramente no generoso mercado financeiro brasileiro.

É usual no Brasil proporcionar ao investidor estrangeiro retornos de até 5% ao mês em dólares. Há quanto tempo isso funciona nas aplicações em nossa eficiente BMF/Bovespa, contra os 2% anuais nos Estados Unidos? É um movimento que se autoalimenta valorizando o câmbio, com forte desestímulo aos investimentos no setor exportador da indústria brasileira.

As exportações brasileiras cresceram 3,2% ao ano entre 1995 e 1998 e em média 8% entre 1999/2002, quando acumulamos dívida, um pesado déficit em conta corrente de US$ 80 bilhões. A partir de 2003 as exportações reagiram, no embalo da espetacular expansão do comércio mundial e até 2008 a média anual de crescimento foi de 22%, muito em função dos bons preços da agropecuária e dos produtos minerais. A condição dos preços das commodities agrícolas já não é a mesma, enquanto as exportações industriais seguem vitimadas pela persistência da sobrevalorização cambial.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
Fonte: Valor Econômico


Câmbio “fora” do G-20

Novembro 3, 2009

Reunião das 20 principais economias do mundo dará pouca importância à cotação do dólar

As taxas de câmbio não devem ser um grande tema na reunião de autoridades financeiras do G-20 (grupo das 20 principais economias do mundo) no fim de semana, mas o assunto pode ser discutido como um dos temas coadjuvantes para o reequilíbrio da economia mundial, disseram fontes da instituição ontem. Algumas autoridades europeias, principalmente francesas, reclamaram nos últimos meses de que a força do euro em relação ao dólar está prejudicando a economia da Zona do Euro.

O comissário da União Europeia para a economia, Joaquin Almunia, pediu na semana passada coordenação nas taxas de câmbio entre as principais economias para garantir que as taxas não se movam excessivamente em uma só direção. Autoridades japonesas disseram que podem ficar preocupadas com a força do iene. Mas várias fontes do G-20 disseram à agência Reuters que não haverá uma conversa crucial neste fim de semana sobre as taxas de câmbio individuais, embora a questão das moedas em geral possa ser levantada durante discussões sobre a redução dos desequilíbrios econômicos mundiais.

O G-20 não concordará em emitir uma forte mensagem sobre taxas de câmbio, a menos que o dólar se enfraqueça muito mais. As fontes também destacaram que o G-20, grupo que inclui as economias mais ricas do mundo e grandes nações em desenvolvimento como China, Índia e Brasil, não discutiu a saúde das moedas em detalhes na cúpula de setembro em Pittsburgh (EUA).

O encontro de ministros das Finanças e presidentes dos Bancos Centrais na Escócia, no fim de semana, não vai tentar expandir a atividade do G-20 nessa área. O comunicado emitido pela cúpula de Pittsburgh incluiu um vago pedido por “taxas de câmbio orientadas pelo mercado que reflitam os fundamentos econômicos básicos”, mas não fez mais referências específicas às moedas.
Fonte: Correio Braziliense


Setor privado pede “reinvenção” do Mercosul

Novembro 3, 2009

Todo acordo comercial do Mercosul tem sido uma dificuldade, embora nenhum até agora tenha deixado de ser assinado por causa de divergências no bloco. O Brasil sempre conseguiu impor uma solução, mas pagando um preço para os outros membros do bloco.

Agora, com o estado cada vez mais calamitoso do bloco, aumenta no setor privado brasileiro a demanda pela “reinvenção” do projeto de integração regional. A opção seria recuar e transformar a união aduaneira em área de livre comércio, desmontando a Tarifa Externa Comum (TEC), já razoavelmente furada.

Com isso, o Brasil poderia fechar sozinho importantes acordos bilaterais de comércio – com a União Europeia, por exemplo, e mais tarde com os próprios Estados Unidos, na visão de alguns segmentos empresariais.

Mas o Valor apurou que no governo Lula outra opção, menos radical, ganha terreno. É a ideia da “flexibilidade negociadora”: o Mercosul negocia um “núcleo duro” de acordo comercial, ficando 20% a 30% das linhas tarifárias para serem negociadas individualmente por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e, no futuro, a Venezuela. “30% é o ideal, 20% é o mínimo”, diz um alto funcionário em Brasília, que diz haver entendimento entre os Ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento e o Itamaraty.

Assim, o Brasil pode oferecer a abertura de certos setores industriais que a Argentina não estaria em condições de aceitar. Ou, na área agrícola, a liberalização do setor de açúcar, que os argentinos tampouco aceitam. “A irritação no Palácio do Planalto com as barreiras argentinas aumentou tanto que agora só falta a coragem de alguém para colocar no papel a opção que praticamente tem consenso nos ministérios”, diz a fonte.

A flexibilidade facilitaria acordos comerciais num momento em que a Argentina tem dificuldades para liberalizar seu mercado, com um processo de reindustrialização que passa pela percepção de que precisa de proteção na fronteira, notam negociadores.

Paraguai e Uruguai também têm resistido a acordos de livre comércio do bloco com outros parceiros porque querem manter o mercado brasileiro cativo. Toda vez que há um acordo do Mercosul com com outros países, é criada uma competição adicional que paraguaios e uruguaios passam a ter no mercado brasileiro, corroendo suas preferências. De maneira geral, os dois negociam mais com o Brasil do que com outros países, tentando manter suas vantagens.

De quarta a sexta-feira, Mercosul e União Europeia vão examinar em Lisboa se é possível retomar a negociação visando realmente a fechar um acordo de livre comércio “possivel” no ano que vem, durante as presidências espanhola na UE e argentina no Mercosul.

Até agora, acordo do Mercosul só deixou de ser assinado por causa dos setores econômicos. Na negociação com as seis nações do Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Omã e Bahrein), foram Brasil e Argentina que não aceitaram a abertura na área petroquímica. Os árabes, com bilhões de dólares em investimentos, consideravam que era no setor seu principal ganho.

Em 2010, o Mercosul continuará a negociar com Marrocos, Egito, Jordânia e Turquia. O acordo com Israel ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos.
Fonte: Valor Econômico


Governo prepara mudanças na legislação cambial

Novembro 3, 2009

Uma das propostas é facilitar o investimento no Exterior.
Interessado em reduzir a permanência de dólares no Brasil, o que evitaria a desvalorização da moeda americana, o governo prepara mudanças na legislação cambial. Uma das propostas é facilitar o investimento no Exterior.

Em viagem a Buenos Aires, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse que apresentará ao Conselho Monetário Nacional “um conjunto completo’’ de propostas para rever a atual legislação cambial. Garantiu que antes da consolidação haverá consulta a “diversos setores da sociedade’’.

Meirelles lembrou que o atual “marco regulatório’’ cambial brasileiro “foi construído baseado num pressuposto de carência de moeda externa’’. A ideia era “evitar que o dólar saísse do Brasil o máximo possível e atrair o máximo possível de dólar’’, por meio de uma série de restrições.

Fonte: ZERO HORA


Nosso sócio é um desastre

Novembro 3, 2009

Fomos ver de perto como funciona a economia do novo membro do Mercosul. O cenário é chocante. A cubanização da Venezuela já destruiu a produção de bens e alimentos

Duda Teixeira, De Cidade Guayana

Brasil acaba de aceitar um sócio de alto risco. Na quinta-feira da semana passada, a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou a adesão da Venezuela ao Mercosul. O assunto seguirá agora para votação no plenário, onde a maioria governista deve referendar a decisão. Como Uruguai e Argentina já deram sinal verde, só falta o aval do Senado do Paraguai. Não se tem ideia de como o coronel Hugo Chávez fará para cumprir as cláusulas democráticas do Mercosul. Seu governo é autoritário, persegue opositores, jornalistas e pretende prolongar-se indefinidamente. Como sócio. Chávez terá poder de veto nos acordos comerciais entre os países do Mercosul e o restante do mundo — e não é difícil imaginar o estrago que sua preferência pelas piores parcerias (Coreia do Norte. Ira e Cuba) pode causar. Felizmente, Chávez não é a Venezuela, e um dia o país voltará à democracia e ao progresso.

Até que isso ocorra, Chávez será outra perturbação numa instituição estagnada. Não há acordo entre os membros do Mercosul sobre os próximos passos, as políticas comuns nunca saíram do papel e cada governo se queixa do protecionismo do vizinho. Na campanha presidencial no Uruguai, falou-se abertamente em deixar o bloco e assinar livremente acordos com os Estados Unidos e a União Europeia. Na semana passada, o Brasil adotou represálias comerciais contra a Argentina, que há anos impõe restrições à entrada de produtos brasileiros. A Venezuela é um bom parceiro comercial do Brasil. Nos últimos dez anos, a exportação de produtos brasileiros para aquele país multiplicou-se quase dez vezes. O superavit a favor do Brasil beira os 5 bilhões de dólares. Nada a ver com o Mercosul. Muitos dos negócios foram facilitados pura e simplesmente pela destruição da capacidade produtiva doméstica em razão do malfadado socialismo do século XXI de Chávez.
Em cinco anos, desde que o coronel se declarou comunista, mais de cinquenta companhias de grande porte e 2,5 milhões de hectares de terra foram estatizados. Mais de 250000 cooperativas foram criadas para substituir as empresas “burguesas”. O resultado é desastroso. A produção das companhias nas mãos do estado caiu 40%, enquanto o número de funcionários duplicou. De todas as terras ocupadas, apenas 2% continuam a produzir. Das cooperativas criadas, 96% já foram desfeitas. Não se pode acusar Chávez de ter mentido sobre suas intenções. “Produtividade e rentabilidade são conceitos do malvado capitalismo e do neoliberalismo”. disse o coronel, com sinceridade.
VEJA foi ver de perto o processo de cubanização em curso no país que aceitamos como sócio. Durante sete dias, uma equipe de jornalistas visitou indústrias e fazendas cubanizadas em oito cidades. Um caso exemplar é a Alcasa, fábrica de alumínio em Cidade Guayana, polo industrial a 530 quilómetros de Caracas. Em 2005, o controle da estatal foi entregue aos trabalhadores em regime de cogestão. A primeira providência deles foi realizar uma eleição para a escolha dos cargos de direção. A título de preparação para os novos cargos, os eleitos receberam cursos sobre o “Pensamento económico de Che Guevara” e de guerrilha, pomposamente rebatizada de “guerra assimétrica contra o imperialismo”. Na visão do então presidente da companhia, o professor de educação física Carlos Lanz, a prioridade nunca foi produzir, e sim ‘”criar pequenas unidades que possam empregar armamentos básicos: fuzis e lança-foguetes, ou em seu lugar explosivos de maior escala”. Uma unidade de milicianos foi montada dentro da empresa, comandada pelo chefe de RH. O número de empregados dobrou, enquanto a produção desabava. Na semana passada, das 684 células de produção de alumínio. 316 estavam paradas por falta de manutenção. “Estamos no meio de um processo, aprendendo como as coisas funcionam”, explicou a VEJA Alcides Rivero, um dos coordenadores do Controle Obreiro, a organização de empregados. O descaso com os direitos trabalhistas é um ponto em comum nas empresas socialistas. A falta de equipamento de segurança tornou-se crônica. Na PDVS A. a estatal petroleira, funcionários que deixam o turno precisam entregar as botas de borracha aos que entram. Os coletes salva-vidas dos que trabalham no mar estão em trapos. Muitas vezes, os próprios empregados compram capacetes e equipamentos de proteção. “Os equipamentos de segurança na estatal nunca foram bons. Agora, estão ainda piores”, disse a VEJA José Bodas, dirigente sindicai da PDVSA.
Os salários estão congelados, apesar de a inflação anual ultrapassar os 30%. Quem ousa reclamar ou promover greve é punido. Rubén González, sindicalista faz quinze anos na Ferro-minera Orinoco, em Cidade Piar, está há um mês em prisão domiciliar. Chavista no passado, González organizou uma greve em agosto pedindo o pagamento retroativo de um aumento salarial. Depois da paralisação, foi preso por seis dias sob acusação de incitar a delinquência. Solto, foi condenado à prisão domiciliar. “Meu crime foi defender os trabalhadores”, disse González a VEJA. Aos 50 anos. ainda é membro do PSUV, o partido de Chá-vez. “Isso não é socialismo, porque não há igualdade. Nós, trabalhadores, somos discriminados’*, diz. Até o momento, o governo chavista já processou 64 dirigentes sindicais. Nas palavras do jornalista Damián Prat, que escreve no Correo dei Caroní, Chávez entrará para a história por ter criado o “estatismo selvagem”.
A devastação chavista é ainda mais virulenta no campo. As invasões de terra estão a cargo das Forças Armadas. Há sete meses. Orlando José Po-lanco teve sua fazenda de 2 200 hectares no município de Simón Planas tomada por l 000 soldados. Logo depois chegaram quinze tratores para começar a arar a terra. Com o movimento das máquinas ao fundo, Hugo Chávez gravou no local o Alo Presidente, seu programa dominical na televisão. Uma semana depois, todos os tratores estavam quebrados. *’Há muitas pedras no solo aqui. É impossível arar ou plantar feijão”, diz Polanco. “Eles não sabem o que fazem.” A casa do vigia, dentro da propriedade, transformou-se em um posto da polícia militar. AIO metros de distância ainda se vê um ninho de metralhadoras, deixado pelo Exército.
Nem os pequenos proprietários estão a salvo. No mês passado, um helicóptero Superpuma da Aeronáutica, com capacidade para vinte pessoas, pousou na fazenda San José. de 71 hectares, em Barquisimeto, levando a bordo o presidente do Instituto Nacional de Terras e o ministro da Agricultura. Bandeiras foram hasteadas, houve discursos e, uma semana depois, chegaram 250 integrantes da milícia campesina. Eles vestem camisa vermelha, pintam o rosto com tinta de camuflagem e cantam hinos revolucionários. ‘”Aconteceu tanta coisa em apenas um mês que acho que não tenho mais medo de nada. Estou pronto para o pior”, disse a VEJA Oscar Martinez, que plantava milho e criava gado para corte na San José. Martinez e outros agricultores lembram com saudade de quando a Venezuela exportava café, milho, arroz e laranja. Antes de Chávez, o país produzia 90% do açúcar e 76% da carne que consumia. Hoje, a produção doméstica só dá conta de 30% e 45%, respectivamente.
Os apagões quase diários e sem aviso prévio, que duram entre duas e cinco horas, são outro exemplo da ineficiência socialista. Apenas a cubanização explica como um país instalado sobre a quinta maior reserva de petróleo do planeta padece de escassez de eletricidade. A incapacidade administrativa do chavismo pode ser medida em números. Por falta de manutenção, só está em operação metade das vinte turbinas de Guri, a principal hidrelétrica do país. A maior termelétrica. Planta Centro, opera com reles 6.5% da capacidade instalada. Na Electricidad de Caracas (EDC), a produção já é 5% menor que a de dois anos atrás, quando foi estatizada. A Edelca, estatal de geração de energia
hidrelétrica, era considerada ura exemplo de eficiência. No ano passado, pela primeira vez. não registrou lucro. Seus fornecedores não recebem há quatro meses. Nos últimos quatro anos, o número de funcionários subiu de 3 500 para 5 600.
A única consequência positiva da devastação do sistema produtivo 6 a queda da popularidade de Chávez. Com os alimentos escassos, salários congelados, falta de água e luz, os venezuelanos começaram a entender o significado real do que diz o presidente falastrão. Segundo as pesquisas, apenas 17% votariam por Chávez se eleições fossem hoje. Há um mês, eram 31 %. A desastrosa transição para o socialismo só não levou o país ao colapso total porque o presidente conta com dinheiro da venda do petróleo. Estima-se que Chávez tenha gasto 900 bilhões de dólares em dez anos, metade de quais proveniente da exportação petrolífera. Em termos de desabastecimento a vida no país assemelha-se bastante de Cuba: há escassez de papel higiênico, sabonetes, farinha e leite. Nos supermercados estatais, a lista com produtos disponíveis é fixada na porta a cada manhã. Quase todos os alimentos são importados. A diferença entre Venezuela e Cuba é que primeiro país tem quase triplo da população do segundo e guarda petróleo em seu subsolo. Com gente e dinheiro, a Venezuela é um mercado muito mais atraente para o Brasil que a ilha caribenha. Já Chávez é tão ruim para seu povo quanto os caquéticos irmãos Castro.
Fonte: Veja


Cresce o Mercosul

Novembro 3, 2009

VENEZUELA Convergência de Lula, Chávez e opositores venezuelanos isola a oposição brasileira

Em 29 DE OUTUBRO, a Comissão de Relações Exteriores do Senado rejeitou, por 11 votos a 6, o parecer do relator Tasso Je-reissati (PSDB) contra o ingresso da Venezuela no Mer-cosul e aprovou, por 12 a 5, o relatório alternativo governis-ta. Restam a votação em plenário, na qual não deve haver dificuldade, e a aprovação pelo Paraguai, cuja definição deve seguir a do Brasil. Criadores e agricultores paraguaios querem exportar para a Venezuela e seus congressistas conservadores não assumirão sozinhos o ónus de bloquear o acordo.
Mesmo apoiados pela mídia conservadora, PSDB, DEM e PPS não conseguiram fazer prosperar seu discurso ideológico antibolivariano. Venceram o pragmatismo capitalista dos empresários brasileiros e venezuelanos e o bom senso dos oposicionistas daquele país, que compreendem que entrar no Merco-sul é bom tanto para a economia quanto para a democracia de seu país. •
Fonte: Carta Capital


Oposição quer adiar votação final sobre Venezuela no Senado

Novembro 3, 2009

DEM exige apuração da OEA para aprovar país no Mercosul; governistas falam em ganho econômico

MARIA CLARA CABRAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
GABRIELA GUERREIRO
DA FOLHA ONLINE, EM BRASÍLIA

O ingresso da Venezuela no Mercosul segue para a última etapa de discussão pelo Congresso brasileiro. O assunto deve entrar na pauta do plenário do Senado já nesta quarta-feira.
Com maioria, a base aliada ao presidente Lula prevê a aprovação do país no bloco econômico mesmo com a promessa de líderes oposicionistas em dificultar a votação. A disposição dos governistas é aprovar o protocolo até o meio deste mês.
Os governistas vão tentar convencer a base de que o ingresso do país no Mercosul trará ganhos econômicos ao Brasil, com a disposição do presidente Hugo Chávez em industrializar o país. Com o lobby da iniciativa privada em favor da Venezuela, a base aliada também espera sensibilizar congressistas da oposição.
A ordem no governo é insistir que a entrada da Venezuela no bloco não representa uma vitória política de Chávez.
O líder do DEM, José Agripino Maia (RN), diz que uma das possibilidades para dificultar a aprovação é obstruir a pauta do plenário. Junto com o PSDB, ele afirma que a votação não deve ocorrer até que a Venezuela se comprometa com algumas ressalvas -entre elas aceitar uma apuração da OEA (Organização dos Estados Americanos) sobre acusações de violação de direitos humanos.
“Pelo povo [venezuelano] e pelo país, o ingresso já estava aprovado, mas não podemos aceitar essas posições chavistas”, disse Agripino Maia.
A oposição aposta ainda que pode contar com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), para retardar a votação. O peemedebista já fez manifestações contrárias ao ingresso do país no Mercosul.
A base, no entanto, diz acreditar que o senador não vai priorizar seu posicionamento pessoal. “Sarney não vai confundir as coisas”, afirmou Renato Casagrande (PSB-ES).
Se o protocolo passar pelo plenário, o Paraguai será o único integrante do bloco que ainda não terá concluído a análise do ingresso da Venezuela. A Argentina e o Uruguai já aprovaram o protocolo de adesão.
Fonte: Folha de São Paulo


Cuba recebe visita do Governo Brasileiro

Novembro 3, 2009

Pela segunda vez no ano, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, chefiará visita oficial a Cuba, em 4 de novembro. Como parte da programação em Havana, ele se reunirá com autoridades do governo cubano e presidirá a primeira reunião do Grupo de Trabalho Brasil-Cuba, junto com o ministro do Comércio Exterior e Investimentos Estrangeiros, Rodrigo Malmierca.

Miguel Jorge também participará da abertura do Dia do Brasil na 27ª Feira Internacional de Havana (FIHAV) e visitará o pavilhão brasileiro. Este ano, a FIHAV contará com a participação de 32 empresas brasileiras, cuja participação no evento está sendo coordenada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil).

O Grupo de Trabalho Brasil-Cuba foi criado em julho último, durante visita oficial do ministro brasileiro, com o intuito de acompanhar os projetos de cooperação econômica entre os países, que fecharam o período janeiro-setembro de 2009 com um intercâmbio comercial de US$ US$ 249,7 milhões. O valor é 38,3% inferior ao registrado no ano passado, US$ 404,7 milhões.

Ainda integram a comitiva o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Comercio bilateral

Nos nove primeiros meses de 2009, as importações brasileiras provenientes de Cuba aumentaram 42,4%, passando de US$ 23,8 milhões (2008) para US$ 33,9 milhões (2009). O país ocupou a 71ª posição entre os mercados fornecedores de produtos ao Brasil. A importação ficou concentrada, sobretudo, em extratos biológicos para uso medicinal (72,9% do total), cimento portland (23,5%) e charutos (1,6%).

No acumulado janeiro-setembro de 2009, as exportações brasileiras para Cuba somaram US$ 215,8 milhões, o que representou queda de 43,3% sobre o mesmo período de 2008, quando as vendas externas para os cubanos totalizaram US$ 380,9 milhões. O país ocupou a 60ª posição entre os mercados compradores de produtos brasileiros.

Nos primeiros nove meses deste ano, a pauta de exportação brasileira para Cuba foi constituída por 61,8% de bens industrializados e 38,2% de produtos básicos. Os principais produtos brasileiros vendidos para o país, nesse período, foram: farelo e resíduos da extração de óleo de soja, carne de frango congelada, fresca ou congelada, café cru em grão, óleo de soja refinado, enchidos de carne, óleo de soja em bruto, móveis e calçados, dentre outros.

Levantamento da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostra que há diversos produtos brasileiros com potencial de crescimento nas exportações para Cuba. Dentre eles, óleos combustíveis, leite e derivados, carnes, aparelhos de telecomunicação, artigos de plástico, preparações vegetais, veículos automotores e autopeças, calçados, fertilizantes, produtos químicos, aparelhos de aquecimento e refrigeração e bens de informática.

Por outro lado, o estudo mostra que há possibilidade do Brasil comprar mais pescados, medicamentos, cimento portland e bens de consumo como charutos e bebidas alcoólicas de Cuba.

Fonte: MDIC