Os países da América Latina devem esperar por meses ou mesmo anos até se recuperarem plenamente da atual crise econômica, afirmaram nesta segunda-feira economistas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), durante a apresentação do relatório Perspectivas Econômicas da América Latina 2009. Para evitar maior desgaste, as economias latinas devem estar dispostas a ajustes fiscais e mesmo a mudanças na política-econômica, já que a intervenção pode ser a única solução para que os efeitos sejam menos devastadores.
“O ajuste de políticas fiscais terá um papel muito importante para que os países saiam da crise o quanto antes. Sem dúvida, a região está muito melhor colocada para enfrentar uma crise desta amplitude do que há 20 anos, mas algumas economias inevitavelmente deverão ser obrigadas a recorrer ao FMI”, avalia Carlos Quenan, professor do Instituto de Altos Estudos da América Latina.
Para Quenan, os latino-americanos não devem chegar a 2% de crescimento no ano que vem. “Felizmente, ainda ninguém do continente precisou recorrer ao FMI e isso é um sinal de solidez das economias. Mas tenho certeza de que, para muitos, essa acabará sendo a única solução”, prevê o especialista, sem citar exemplos.
“Se a crise mundial ainda for longa, a América Latina vai viver vários meses, ou talvez anos, muito difíceis. A sua dependência das exportações ainda é muito grande e as relações econômicas com os Estados Unidos, muito fortes”, disse o coordenador do Centro de Desenvolvimento da América Latina da OCDE, Jeff Dayton Johnson, no evento realizado na sede da instituição em Paris na manhã desta segunda-feira.
“No entanto, as crises em geral favorecem as reformas. O momento é de ter perspicácia e aproveitar para agir e consertar o que está errado em matéria de ajuste fiscal”, completou. Conforme o relatório, os países latino-americanos se aperfeiçoaram bastante nas políticas fiscais nos últimos anos, mas ainda não estão em uma situação satisfatória.
“É preciso pensar na política fiscal como algo que vai estabilizar a macroeconomia no país, para evitar a inflação e o desemprego. Mas há também outros objetivos, tão importantes quanto, relativos ao desenvolvimento, que são o crescimento econômico, a redução da pobreza e das desigualdades e a construção de uma coesão social”, afirmou Johnson.
“Parece que estamos finalmente passando de um longo período de esforços quantitativos para uma fase de preocupação qualitativa de desenvolvimento”, disse Jean-Michel Blanquer, presidente do Instituto das Américas.
O estudo – que se tratava muito mais de uma análise da conjuntura atual do que um documento apontando as perspectivas futuras – mostra que as instituições e a democracia sul-americanas estão mais fortes. O Brasil foi situado como uma democracia “média”, com apenas 30% de satisfação. O País foi utilizado como exemplo para demonstrar o quanto os investidores estrangeiros ainda temem as épocas de eleições no continente.
“Os investidores parecem não gostar da democracia latina. Eles têm medo dos resultados e os gráficos mostram o quanto os investimentos são afetados a cada vez que há uma votação importante”, explicou Johnson, citando o caso intitulado “De Lula preta a Lula de mel”, sobre as duas eleições do presidente brasileiro. Nos dois pleitos, apenas o primeiro registrou uma queda brusca dos investimentos, em função das dúvidas quanto ao futuro sob a administração do petista.
“Foi um caso clássico de pânico. Eles viam Lula como um verdadeiro diabo que traria problemas graves à economia latino-americana”, disse. “Mas eu entendo todos estes medos porque, via de regra, sempre acontece uma expansão fiscal indesejável logo nos primeiros meses dos novos governos. Felizmente, essa mentalidade vem mudando para muitos governantes, como vem mostrando Lula ao longo da sua administração.”
A informalidade do mercado de trabalho também suscita preocupação dos especialistas e é um entrave para o desenvolvimento da região. “Se a cada dois trabalhadores, um é informal, temos uma grande parte da população economicamente ativa que não contribui nem se beneficia das políticas do Estado. É um problema muito grave para o desenvolvimento social que não parece estar sendo atacado”, adverte Johnson.
O relatório apontou ainda que, em comparação aos países europeus, os latinos ainda arrecadam muito pouco e gastam muito mal a receita. A educação, conforme os especialistas, é um dos pontos-chave dos maus-investimentos. Embora os recursos tenham aumentado, a qualidade do serviço prestado e os resultados permanecem insatisfatórios.
“Em termos de qualidade de ensino, um latino-americano de 15 anos tem o equivalente a três anos de escolaridade a menos do que um finlandês. A América Latina precisa invariavelmente evoluir a qualidade do ensino e do corpo docente para poder criar melhores oportunidades”, avalia Jonhson. “Programas de incentivo ao estudo, como o brasileiro, podem ser uma excelente ferramenta para ao menos garantir a escolaridade mínima”, defendeu Blanquer.
Fonte: Terra