Ainda mapeando o tamanho da encrenca das empresas exportadoras que fizeram apostas com derivativos cambiais, o Banco Central decidiu solicitar informações a bancos centrais e a órgãos reguladores de outros países. Os bancos estrangeiros que fizeram essas operações com empresas brasileiras não estão obrigados a informá-las ao BC, daí, a necessidade do pedido de informação a instâncias superiores.
Há uma forte justificativa para correr atrás desses dados. O BC constatou que uma boa parcela das operações de hedge cambial foi feita, no caso das grandes empresas, no exterior. Subsidiárias de companhias exportadoras lá fora (off-shore) fecharam contratos com bancos internacionais. Por causa disso, as operações não foram sequer reportadas no Brasil.
Empresas de menor porte firmaram contratos idênticos aqui mesmo, no mercado doméstico. Em geral, a operação envolvia a concessão de um empréstimo pelo banco, a uma taxa de juros menor que a média do mercado, e a compra de um derivativo cambial pela empresa. Com o dólar perdendo valor em relação ao real e diante do fato de que o BC acumulara reservas superiores a US$ 200 bilhões, muitos atores do mercado passaram a acreditar que o câmbio não sofreria forte depreciação. Eles só não contaram com a agudização da crise internacional.
Sobre as operações feitas no mercado interno, o BC dispõe de todas as informações. Tem, portanto, noção do risco a que estão expostos bancos e empresas envolvidos nesse tipo de contrato. O mandato legal do BC é zelar pela saúde do sistema financeiro e não propriamente das empresas exportadoras. Em tese, por causa da forte desvalorização do real nas últimas semanas, os bancos que venderam contratos de derivativos cambiais estariam ganhando muito dinheiro.
Há, porém, o outro lado da história. A perda das empresas que entraram na jogatina cambial é tão grande que elas estão procurando os bancos para renegociar seus contratos. Outras planejam recorrer à Justiça. As opções são absolutamente legítimas, mas em ambos os casos rebaterão no caixa dos bancos, o que, aí sim, poderá preocupar diretamente o BC.
Esses contratos cambiais têm vencimentos que vão de um a dois anos. As perdas das empresas, deste modo, vão depender de como estará a situação de algumas variáveis no vencimento das operações, principalmente, a taxa de câmbio. Aparentemente, a aposta predominante era a de que o dólar não subiria acima da cotação de R$ 1,90. Há mais de duas semanas está acima de R$ 2,00 – daí, o interesse do BC em dar liquidez ao mercado e derrubar a cotação da moeda americana, além da preocupação nada desprezível com a inflação.
Uma autoridade do governo assegura que não há, para os bancos, risco sistêmico. A suspeita de que existe um “subprime brasileiro” é repelida com veemência e atribuída ao que há de pior no “fogo amigo” de Brasília. “Não vejo isso como um grande problema. Eventualmente, um ou outro banco terá uma perda maior por causa dessas operações, mas não enxergo isso como um problema sistêmico, não é algo que deva preocupar. É um assunto para monitoramento”, explicou a fonte.
A busca de informações no exterior sobre as operações das grandes empresas não diz respeito à saúde financeira dos bancos que operam no Brasil, mas ajudará o governo a ter uma idéia dos riscos e prejuízos a que essas companhias estão expostas. Uma estimativa das perdas permitirá avaliar os impactos na economia real das apostas mal-sucedidas em câmbio.
Apenas três grupos exportadores – Sadia, Aracruz Celulose e Votorantim – já anunciaram prejuízo de quase R$ 5 bilhões nessas operações. Não se tenha dúvida: os danos afetarão a capacidade de investimento das empresas. A depender dos prejuízos ainda a serem contabilizados por outras companhias, o estrago sobre o crescimento da economia brasileira a curto e médio prazos será sensível. É bom lembrar que, dentre as maiores empresas nacionais, a maioria é exportadora.
No mercado, um experiente analista diz que a preferência adicional por liquidez deriva da necessidade de proteção dos riscos cambiais excessivos das empresas. “Tudo isso ajudou a acelerar um processo que, por si só, já seria de forte contração de crédito, especialmente no corporativo. Com o crédito restrito, os setores com mais alavancagem, descasamento de balanço e margem menor ficaram muito vulneráveis ao gap de financiamento”, explica o analista. Numa economia em que as empresas vinham aumentando sua alavancagem financeira para crescer, o hiato no crédito, mesmo no capital de giro, diz a fonte, é uma situação potencialmente perigosa para a atividade. A demanda deve cair mais rápido do que se esperava.
O problema cambial levantou, nos últimos dias, a idéia de que é preciso aumentar a regulação do governo sobre as operações com derivativos. Na verdade, do ponto de vista do sistema financeiro, a regulação já existe. O Banco Central já monitora o grau de exposição dos bancos em operações com câmbio. Vez ou outra, quando percebe riscos de possível desequilíbrio, dá uma aperto nas instituições.
No caso das empresas não-financeiras, o melhor caminho é obrigar as companhias de capital aberto a informar suas posições em derivativos, tanto na exposição em taxa de juros quanto em câmbio. Depois de consultar o BC sobre o assunto, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) optou por aumentar a exigência de transparência, afinal, o investidor tem o direito de saber se a empresa na qual investe não está fazendo apostas perigosas que podem lhe custar a diminuição do lucro e, portanto, de rentabilidade.
É importante ressalvar que operações de hedge cambial são corretas e necessárias. O problema são os exageros. Nos contratos mencionados, as empresas viram oportunidades não apenas de se proteger contra uma eventual desvalorização do real, mas também de ganhar dinheiro. Com as novas regras da CVM, elas pensarão duas vezes antes de incorrer em exageros.
Cristiano Romero.
Fonte: Valor Econômico