A decisão da Gerdau, a maior siderúrgica brasileira, de aumentar em mais de seis vezes a capacidade de produção de aço da Siderperú, produtora de aço peruana comprada pela companhia brasileira em 2006, é uma etapa relevante da internacionalização da economia brasileira. Vale notar que a Gerdau tem uma proposta de expansão da Siderperú bastante acelerada. Na primeira etapa, a produção será elevada das atuais 450 mil toneladas para 1,5 milhão de toneladas até 2011. A pretensão é atingir 3 milhões de toneladas métricas até 2013.
A execução dessa proposta demandará investimento de US$ 1,4 bilhão, utilizado na compra, construção e instalação de novos equipamentos de produção. Esses aportes também devem atender a necessidades logísticas, tanto de infra-estrutura como de energia, e até um porto de abastecimento está previsto no projeto. Desde a compra da Siderperú, a Gerdau já investiu US$ 122 milhões para modernizar o complexo siderúrgico, seguindo o cronograma de compromissos assumidos com o governo peruano. Preocupações ambientais também fazem parte desses investimentos e US$ 40 milhões já foram alocados, desde o ano passado, em estruturas de proteção de água e solo.
A Gerdau tem um alvo estratégico nessa decisão que, de certa forma, resume o processo de internacionalização da economia brasileira. A direção da empresa insiste em que o Peru é “país estratégico” por ser um mercado com grande potencial de desenvolvimento. Na perspectiva da empresa, o investimento na siderúrgica peruana permitirá o aumento da exportação para a América Latina e Ásia. Sem esquecer que os novos níveis de produção previstos devem gerar auto-suficiência em aço para o país. Hoje o Peru importa metade do aço que consome, apesar de sua produção doméstica já atingir 400 mil toneladas anuais. A compra da Siderperú, por meio da compra de 84% de suas ações há dois anos, já representou investimentos de US$ 203 milhões.
O exemplo da Gerdau representa bem o processo de internacionalização da economia brasileira. Essa empresa tem fábricas próprias na Argentina, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Uruguai, México, República Dominicana e Peru, além de siderurgias em sistema de parceria na Europa e Ásia. A empresa anunciou também neste ano relevantes ampliações de produção na Índia e na América Central. Merece atenção que as operações da empresa no Brasil representaram, em 2007, apenas 35% da receita bruta. E este não é um caso isolado. Em dezembro passado, relatório do The Boston Consulting Group mostrou os efeitos das agressivas estratégias de investimento de empresas brasileiras no cenário econômico internacional, quando apontou que entre as 100 companhias que mais se destacaram em países de rápido desenvolvimento, 13 delas eram brasileiras.
A China é o país, segundo esta pesquisa, com maior presença internacional, com 41 empresas, seguido da Índia, com 20, do Brasil, com 13, do México, com 7, e da Rússia, com 6. Essas empresas apresentaram um crescimento médio de 35,4% entre 2002 e 2007 , bem superior ao crescimento médio do conjunto das empresas dos mercados emergentes, que foi de 24,3%. Apenas como comparação, a consultoria internacional mencionou que as empresas tradicionais que compõem o S&P 500 (as 500 companhias com ações de maior valor e liquidez selecionadas pela Standard & Poors) alcançaram crescimento médio, no mesmo período, de apenas 7,5%.
É fato que o processo de internacionalização convive com riscos. A Sinderperú está localizada em Chimbote, uma cidade a pouco mais de 400 quilômetros ao norte de Lima e 80% de suas vendas são de aços longos e 20% de planos, que atendem às especificidades da demanda doméstica. O Peru é uma economia que seguiu na última década o modelo chileno de abertura da economia, mas ainda não conseguiu atender a uma imensa dívida social, em especial quanto à forte pobreza registrada no sul do país. A hipótese de adoção de outros modelos, como o de um de nacionalismo radical, existe. Aliás, a última eleição presidencial mostrou isso. A siderúrgica brasileira, no entanto, preferiu apostar no processo de consolidação e aproximação com o modelo oferecido pela economia brasileira. É a opção correta. E a melhor confirmação do acerto dessa escolha está no fato de que a Gerdau, no primeiro semestre, alcançou um crescimento de faturamento bruto de 35,2, em relação ao mesmo período do ano passado. A decisão da Gerdau de internacionalizar sua produção e mercado está na origem dessa expansão de faturamento.
Fonte: Gazeta Mercantil
