WILEN MANTELI
A notável historiadora norte-americana Barbara W. Tuchman, falecida em 1989, registrou, em seu livro a “Marcha da Insensatez – De Tróia ao Vietnã”, “um dos mais estranhos paradoxos da condição humana: a sistemática procura, pelos governos, de políticas contrárias aos seus próprios interesses”. O cenário atual do sistema portuário brasileiro, pontuado por conflitos generalizados de interesses entre os atores envolvidos, pode estar no caminho para uma verdadeira “marcha da insensatez”, que irá ameaçar a estabilidade institucional do setor e o próprio desenvolvimento econômico do país.
Não bastassem os notórios e crônicos obstáculos à modernização dos portos, tais como burocracia excessiva (mais de 28 órgãos e entidades interferem no porto), dificuldades na gestão da mão-de-obra avulsa e grevismo inconseqüente de servidores públicos, temos como problemas ainda pendentes a harmonização dos marcos regulatórios, hoje confusos e sobrepostos, a lentidão do governo federal na formulação de uma política portuária nacional e conflitos interempresariais em torno da regulamentação de outorgas para terminais portuários.
Como resultado desse imbróglio, todos os atores da cena portuária têm colocado a defesa dos seus interesses individuais ou corporativos acima da disposição para a negociação e o entendimento, ingenuamente transferindo para as mãos do governo a responsabilidade pela criação de soluções. Quando não são atendidos pelas autoridades administrativas, como quase sempre acontece, recorrem ao Poder Judiciário. Está em curso um processo de judicialização da atividade portuária – na verdade um retrocesso: há portos que estão sendo administrados por juízes através de liminares, por exemplo para determinar prioridades de atracação de navios ou providências relativas à gestão da mão-de-obra avulsa.
A saudada Secretaria Especial de Portos, criada no ano passado, encontra-se, em decorrência desse quadro, virtualmente paralisada. O ministro Pedro Brito, em apenas um ano, conseguiu implementar algumas mudanças importantes na gestão dos portos, nos serviços de dragagem e nos mecanismos de incentivo fiscal (renovação do Reporto). Mas agora está de mãos atadas à espera de uma definição do Planalto sobre o decreto da nova política portuária nacional, que, no presente cenário conflituoso, pode ganhar contornos indesejáveis. Ganha força um velho truísmo: quando o setor empresarial se divide, abre espaço para o governo interferir na atividade econômica com medidas retrógradas que prejudicam o setor produtivo.
Para evitar o futuro ônus do insucesso de uma política portuária não comprometida com os anseios da sociedade, é fundamental que o governo abra um ciclo de audiências públicas sobre o assunto. Sua minuta de decreto deve passar pelo crivo dos setores diretamente envolvidos na atividade portuária, em consonância com as melhores práticas democráticas. A falta de transparência, contraproducente de forma geral, o é ainda mais num setor que reúne tal diversidade de atores e que hoje parece dominado pelo dissenso. Afinal, se o governo é temporário, a política portuária não deveria sê-lo, em virtude da sua importância para o país e dos elevados investimentos que requer.
Ao lançar mão do instrumento da audiência pública, o governo estará blindando os portos contra o cavalo de Tróia e a marcha da insensatez que ameaçam instalar-se, e dessa forma criando condições para o sistema portuário se modernizar a tempo de responder positivamente ao enorme desafio do crescimento do comércio exterior brasileiro.
WILEN MANTELI é presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários.
Fonte: O Globo
Escrito por Guilherme Oliveira
Escrito por Guilherme Oliveira
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