Brasília – Na segunda parte da entrevista, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, fala sobre a situação social e econômica da Bolívia e sobre a participação periférica do Brasil e uma nova negociação do governo colombiano com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Garcia aborda também a cooperação brasileira com a Venezuela e a decisão daquele país de estatizar o setor de cimento e o potencial energético do continente, hoje o maior e mais diversificado do mundo.
ABr: O debate interno da Bolívia sobre a condução da sua política econômica e social pelo presidente Evo Morales, inclusive levando ao referendo, preocupa?
Marco Aurélio: Acho que preocupa fundamentalmente aos bolivianos e a todos nós, porque a Bolívia é um país que tem uma localização específica no continente. Então, tudo que ocorre [ali] reverbera na América do Sul de maneira geral. Temos uma percepção muito positiva da evolução da região nos últimos anos – todos os presidentes da região foram eleitos em pleitos massivos. A América do Sul está vivendo uma situação nova. O que tenho dito é que não adianta ficarmos incomodados com processos políticos que podem não ser exatamente dentro do figurino que é nosso e de outros países da região. Em alguns países, as instituições estavam muito cristalizadas – ‘esclerosadas’ talvez seja o termo melhor – e elas não davam conta de novas dinâmicas sociais. Então, lá pelas tantas, se um rio caudaloso vai passar por um canal muito estreito, esse canal é afetado, e eu chamo a atenção para três países onde houve esse problema – Venezuela, Bolívia e Equador – e a solução encontrada foi mais ou menos a mesma: constituinte, isto é, uma espécie de refundação institucional do país. As pessoas dizem:’mas tem muita agitação’. É evidente. Quando há um redesenho do equilíbrio de forças políticas, é normal que isso aconteça. Tem gente que quer avaliar a América do Sul a partir dos textos de teoria política do Século 19.
ABr: Do ponto de vista de nossas relações econômicas com a Bolívia, há espaço para avançarmos?
Marco Aurélio: A Bolívia tem um problema crucial hoje, do ponto de vista econômico. É um país com um potencial gigantesco de expansão: produz hoje quase 50 milhões de metros cúbicos de gás por dia, e só para o Brasil, exporta 30 bilhões. A Bolívia, cujo consumo interno se expandiu bastante, tinha compromissos importantes de venda para a Argentina, que está renegociando. Ela tem a seu lado um país com uma demanda gigantesca, o Chile. Seria uma demanda de 30, 40 milhões, sem falar que, se as negociações com o Chile progredirem como estão progredindo, para se encontrar uma solução de saída para o mar etc, a Bolívia poderia se transformar também em uma grande exportadora para outros mercados: Ásia, Estados Unidos, México. Calculo que ela teria uma demanda potencial de 100 milhões de metros cúbicos, se não mais. O problema é que tem que expandir a produção. Tomamos a decisão de investir porque acreditávamos que não só tínhamos que assegurar a produção para o consumo brasileiro, como também tínhamos que assegurar condições melhores para o funcionamento econômico da Bolívia. Além disso, há toda uma idéia de que a Bolívia possa agregar valor ao seu gás. A Braskem [empresa do setor petroquímico] quer montar uma grande fábrica lá, mas só pode fazer isso se houver oferta de gás. Precisa ampliar a produção.
ABr: Depois da libertação de Ingrid Betancourt, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apontado como a pessoa ideal, o negociador ideal entre as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] e o governo colombiano para libertação dos demais reféns. Como o senhor vê isso?
Marco Aurélio: É evidente que o governo colombiano teve êxitos militares e políticos muito grandes em relação às Farc. Sempre fomos enfáticos nas nossas conversas com o governo colombiano, antes mesmo que o presidente Lula houvesse assumido a Presidência [da República], no período de transição entre sua eleição e a posse. Sempre dissemos que estávamos à disposição do governo colombiano para todo e qualquer tipo de esforço mediador. O Brasil, diferentemente de outros países, não tinha e não teve contatos com as Farc – nem o governo brasileiro, nem os partidos que estão no governo – que nos permitissem estabelecer qualquer tipo de interlocução. A Suíça mantinha contatos com as Farc, a França mantinha. A imprensa brasileira e a colombiana, pelo menos essa revista [Cambio], foram muito melífluas [brandas] na difusão dos documentos. Por exemplo, no que me diz respeito, eu apareço muito bem nos tais documentos do Reyes [Raúl Reyes, líder das Farc, morto em março deste ano]. Ele diz: “esse inefable [inefável, que não se tem palavras para qualificar] Marco Aurélio, que se opõe à participação das Farc no Foro de São Paulo [nome genérico de um encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais de esquerda e nacionalistas da América Latina e do Caribe]”. Eles dizem que vão tentar contato com o governo brasileiro, mas não há nenhuma manifestação concreta de que tenha havido qualquer tipo de contato. Nós não teríamos feito isso sem o conhecimento e a aquiescência, do governo colombiano. Quando houve a negociação para a primeira tentativa de libertação de três reféns, eu fui para lá, por determinação do presidente, e naquele momento o governo brasileiro tomou uma precaução: consultar a Colômbia, se eles estavam de acordo. Quando eu fui para lá, o presidente Lula telefonou para o Uribe [Álvaro Uribe, presidente da Colômbia] e perguntou se haveria algum problema. Ele respondeu que não. Quando fui para a Colômbia, recebi seis chamadas do Uribe. Nossa atitude, no que diz respeito à Colômbia, sempre foi de absoluto equilíbrio, e isso é curioso, porque muitas vezes somos acusados, ou de omissão – e o que vemos é um problema interno, que lamentavelmente a Colômbia tem que resolver, e estamos dispostos a ajudar, mas digam-nos como ajudar – ou de termos relações com as Farc, de estarmos torcendo pelas Farc, e digo que não é verdade. Pelo contrário, sempre tivemos uma atitude muito crítica em relação às ações das Farc.
ABr: Hoje há uma solução sendo negociada?
Marco Aurélio: Não. Estivemos ajudando em outras coisas periféricas a isso. No que diz respeito à solução interna, o máximo que fiz foi conversar com pessoas do governo, que nos informaram de que haveria um novo esforço, que duraria uns meses ainda, para ver se chegava a uma solução negociada.
ABr: Isso depois da libertação de Ingrid Betancourt?
Marco Aurélio: Depois da libertação da Ingrid.
ABr: Há uma tratativa para uma solução negociada?
Marco Aurélio: Há uma tratativa do governo colombiano, da qual não estamos participando.
ABr: Do governo colombiano com as Farc?
Marco Aurélio: É. Isso pelo menos o alto comissário para a Paz da Colômbia, Luís Carlos Restrepo, me informou: que haveria um interesse do governo de retomar. Outros funcionários do governo, no entanto, têm uma visão um pouco cética sobre as possibilidade de resolução.
ABr: A posição do Brasil, nesse caso, é diplomática, em que podemos ajudar, desde que chamados?
Marco Aurélio: No início do governo Lula, o então secretário-geral da ONU [Organização das Nações Unidas], Kofi Annan, telefonou para o presidente pedindo que o Brasil ajudasse. Naquele momento, a ajuda significava concretamente que disponibilizássemos um território aqui para as negociações. Consultamos o presidente colombiano e dissemos: ‘Está às ordens um espaço aqui para negociações, para troca de prisioneiros.’
ABr: Para o Brasil, e o continente, é importante uma solução tendo em vista ser uma área complicada, em que há tráfico de drogas, conflitos?
Marco Aurélio: Vamos ver pela lado positivo: a Colômbia é um grande país, esse é o problema. Um país com território e população gigantescos, tem economia pujante. Para o Brasil, uma Colômbia pacificada, sem os problemas que ela tem hoje, é importante. Essas reticências que houve em determinados momentos do processo de integração decorriam muito da situação interna. Então, a resolução da situação interna é, para nós, um ponto fundamental. O governo brasileiro teve, durante todos esse período, a despeito do que se diz de forma irresponsável, uma atitude de enorme sensibilidade em relação à situação colombiana. Nunca houve perda de diálogo. Quantas vezes o presidente Uribe se mobilizou para conversar com o presidente Lula, para trocar opiniões? Quero insistir nisso, nossa agenda com a Colômbia não está centrada em aspectos negativos, ela é eminentemente positiva.
ABr: Na Venezuela, o presidente Hugo Chávez estatizou uma empresa de cimento. Esse tipo de atitude estatizante, pode ter algum reflexo do ponto de vista da disposição dos investidores em continuar aplicando no continente?
Marco Aurélio: Acho que não. Alguns investidores podem ficar assustados, mas não acho que seja problema. Em primeiro lugar, porque acredito que a decisão de estatizar determinado setor está ligada a um determinado modelo de desenvolvimento da economia venezuelana. No passado, sofremos a praga das privatizações – no Brasil, não atingiu tanto assim, mas estou me divertindo muito vendo agora aqueles que estavam querendo privatizar a Petrobras, agora a defendem com unhas e dentes. O problema que se coloca sempre é que os investimentos demandam certas garantias. O bom investidor, o que sabe das coisas, vai além das aparências. A Venezuela é um país que, finalmente, decidiu industrializar-se, sair da ‘maldição do petróleo’. Portanto, é um campo importante. Os interesses do Brasil estão associados a uma integração produtiva da América do Sul. O Brasil fez essa opção, tem quem não goste, que pense que devemos nos integrar aos Estados Unidos, à Europa. Temos relações muito boas com os dois, mas resolvemos por um processo de integração sul-americana, que consideramos melhor para o Brasil e para a América do Sul.
ABr: Na viagem que o senhor fez ao Paraguai, foi discutida a questão dos brasileiros que têm propriedades de terra naquele país?
Marco Aurélio: Não tratei desse assunto, mas tenho a impressão de que esse problema está evoluindo de forma tranqüila. Evidentemente é possível que o presidente [Fernando] Lugo tome algumas iniciativas de reforma agrária lá. Quem somos nós para criticar a reforma agrária em outros países, se estamos fazendo aqui também? E o presidente Lugo e o ministro da Agricultura paraguaio deram uma série de declarações de que fariam isso de forma muito ordenada.
ABr: Se houver uma reforma agrária que atinja alguns brasileiros que são grandes produtores no Paraguai, o Brasil tentará ajudar?
Marco Aurélio: Isso aí é problema interno do Paraguai. Sempre temos uma política de proteção dos cidadãos brasileiros no exterior, essa é uma regra geral. Agora, espero que essas questões se resolvam de forma positiva, entre outras coisas, porque alguns desses setores agrícolas são muito produtivos. Claro que os paraguaios têm preocupações justas, não querem se transformar exclusivamente em uma economia de exportação, querem resolver os problemas sociais, alimentar o povo. Mas essa é nossa política também. Como vamos criticar num outro país a política que praticamos aqui? O presidente Lugo tem se revelado um homem de grande habilidade, que sabe que a transição do Paraguai, depois de mais de 60 anos do regime do Partido Colorado, não é uma coisa que se vai fazer num estalar de dedos.
continua……….