Meirelles defende política do BC para trazer inflação para a meta de 4,5% em 2009

Agosto 5, 2008

Rio de Janeiro – O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse hoje (5), no Rio, que o objetivo do Banco Central é trazer o índice de inflação – que já ultrapassa 6% no acumulado dos últimos 12 meses – para o centro da meta, estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 4,5%, em 2009. Por isso, ele defendeu a política monetária da instituição, que utiliza o regime de metas da inflação para conter a escalada de preços e equilibrar a oferta à demanda.

Segundo Meirelles, o regime de metas e o ajuste de juros são medidas “ordenadas” da política do Banco Central, em contraposição à regulação feita pela própria inflação, outra estratégia para adequar oferta e demanda, e que já foi utilizada por governos anteriores.

“Não existe a médio e longo prazo essa alternativa de tentarmos manter indefinidamente um desequilíbrio via aceitar inflações elevadas”, afirmou. “A inflação é uma forma de ajuste, mas desorganizadora e problemática”, disse Meirelles.

Ao participar do Seminário Grau de Investimento, no Rio, Meirelles também falou sobre o bom momento da economia brasileira marcado pela “previsibilidade”. Segundo ele, isso torna o país mais atraente para investimentos externos.

Fonte: Agência Brasil


Brasil e Argentina têm até US$ 8 bi de motivos para paz

Agosto 5, 2008

País teve saldo comercial positivo nos últimos anos, motivo de queixa Argentina.

     Visita de Lula traz comitiva empresarial que pode chegar a 400 pessoas e é tratada com cuida pela embaixada brasileira

      Restabelecer uma paz que não chegou a ser realmente abalada não é apenas o desejo político dos governantes de Brasil e Argentina. Há US$ 8 bilhões de motivos para evitar atritos. É esse o estoque de investimentos brasileiros diretos na Argentina acumulados desde 2001, ou seja, desde o pico da crise no país vizinho.

      Nenhum país, nenhum empresário, gostaria de turbulência nas relações com um ponto de negócios tão importante. Para não falar da corrente de comércio entre os dois países (tudo o que vendem ou compram um do outro), que, em 10 anos, saltou dos US$ 1,686 bilhão de 1988 para os US$ 24,822 bilhões de 2007. E, este ano, chega a US$ 30 bilhões, pelas contas que se fazem na embaixada brasileira em Buenos Aires.

      O Brasil teve saldo nos últimos quatro anos, o que é mais um motivo para não querer atritos mas é também motivo de freqüentes queixas do empresariado argentino.

      Queixume

      O queixume chegou perto de uma crise, em 2004, quando se travou o que a mídia batizou de “guerra das geladeiras” (a Argentina reclamou de importações excessivas que arruinavam sua indústria).

      A resposta dos dois governos foi criar um MAC (Mecanismo de Adaptação Competitiva), exatamente para evitar que o ganho de um representasse a quebra do outro.

      “Sabe quantas vezes foi acionado o MAC nesses quatro anos? Nenhuma”, pergunta e responde um funcionário graduado do governo brasileiro, para demonstrar que as relações andam no melhor dos mundos.

      De todo modo, a embaixada brasileira é muito cuidadosa ao tratar da visita do presidente Lula, porque o eixo dela, por decisão do próprio presidente, é empresarial. O ator principal é a enorme comitiva empresarial, que pode chegar a 400 pessoas, se incluídos empresários que vieram do Brasil e os já instalados na Argentina.

      Comitiva empresarial

      Diplomatas querem evitar que fique parecendo uma excursão empresarial de compras baratas de empresas argentinas, como se fosse um grupo de turistas convencionais que come nos bons restaurantes de Buenos Aires a preços que, em São Paulo, só se encontram em “fast food”.

      Um bife de chorizo, o melhor corte da inimitável carne argentina, sai por 45 pesos (R$ 26) no Ligure, 75 anos de tradição, a quatro quadras da embaixada brasileira.

      Para não passar essa impressão, usa-se a muleta retórica de que os empresários brasileiros vão explorar com seus colegas argentinos “oportunidades de negócios”.

      Os cuidados com a sensibilidade argentina são tantos que o governo brasileiro tratou logo de desmentir notícia da mídia local segundo a qual o presidente Lula teria ligado para Cristina Kirchner para aconselhá-la, depois que o governo perdeu votação-chave no Senado que derrubou um aumento na taxação da soja e outros produtos do campo.

      Lula de fato quis telefonar, mas um dia e meio depois da derrota (ocorrida dia 16 passado). O então chefe de gabinete, Alberto Fernández, marcou até uma hora para a conversa. Mas, quando Lula ligou, coincidiu de Cristina estar recebendo o presidente da Lituânia. Não pôde atendê-lo.

      Em seguida, Lula é que teve compromissos (Bolívia e Colômbia), com o que o telefonema ficou pendente e acabou se transformando no jantar de ontem em Buenos Aires.

Fonte: Folha de São Paulo


Na Argentina, Lula cogita até moeda comum para o Mercosul

Agosto 5, 2008

Clóvis Rossi, enviado especial a Buenos Aires
Na Argentina, Lula fala de moeda comum no Mercosul
Presidente e Cristina Kirchner vêem momento excepcional na relação bilateral

Brasileiro mostra grande entusiasmo com integração sul-americana e diz a platéia de empresários que “Deus nos fez grudados”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou sua palestra ontem para empresários brasileiros e argentinos num entusiasmado comício a favor do Mercosul e da América do Sul, a ponto de acenar com uma futura moeda comum.
Após lembrar que Brasil e Argentina estão prestes a adotar suas respectivas moedas, no lugar do dólar, para parte das transações comerciais, Lula disse que o esquema “pode ser o germe de uma futura integração monetária”.
O entusiasmo foi tamanho que enveredou por caminhos místicos. Lula chegou a ver “um sinal de Deus” na geografia sul-americana: “Deus nos fez grudados. Mesmo que quiséssemos nos separar, não pode”, disse, para receber ao final aplausos fortíssimos de uma platéia que lotou o salão do hotel Sheraton mas aplaudiu só educadamente sua colega argentina, Cristina Kirchner.
O entusiasmo do presidente pela integração é genuíno, tanto que o derramara, antes, sobre empresários apenas brasileiros, em café da manhã na residência do embaixador do Brasil na Argentina. Chegou a dizer que era preciso “compartilhar a prosperidade” com os vizinhos, tema que retomaria no hotel.
“Uma Argentina industrializada e competitiva fortalece o Brasil, fortalece o Mercosul e fortalece nosso projeto sul-americano”, afirmou.
Foi música para os ouvidos de Cristina, que defendera, antes, políticas industriais para a recuperação do setor em seu país. “A Argentina não teve a sorte do Brasil, cuja elite dirigente teve a profunda convicção da necessidade de um modelo produtivo (…) e adotou políticas industriais desde sempre”, comparou a presidente.
Se, na véspera, em jantar na embaixada brasileira, os dois governantes já haviam desfeito o pequeno mal-estar causado pela divergência nas negociações da Rodada Doha, o seminário empresarial foi a sagração de uma lua-de-mel repleta de retórica calorosa. Para Cristina, há, entre os dois governos, “uma comunhão que eu diria ser inédita na história”. Para Lula, as relações bilaterais vivem “momento excepcional”.
Tão excepcional, de fato, que os dois lados iniciaram gestões para negócios que envolvem bens de imenso valor agregado.
O ministro Miguel Jorge (Desenvolvimento) confirmou que o governo argentino pretende comprar aviões da Embraer para a reestatizada -e virtualmente falida- Aerolíneas Argentinas. Mas não se falou, ao menos ontem, de cifras.
Já a ministra argentina da Defesa, Nilda Garré, disse que a Embraer e a Fábrica de Aviões de Córdoba estão em negociações para que sejam feitas na Argentina partes do avião de transporte C-170. Um acordo com os argentinos viria a calhar para a empresa brasileira, que está carregada de encomendas mas tem dúvidas sobre a manutenção de muitas delas, feitas por empresas aéreas médias e pequenas, duramente afetadas pela alta do preço do petróleo.
Encomendas da Argentina tapariam esse eventual buraco.
Miguel Jorge e Nilda Garré anunciaram também que a Petrobras vai encomendar à Argentina barcos de transporte e eventualmente navios-sonda. A petrolífera precisa de 200 navios, e os estaleiros brasileiros não têm como atender à demanda. Só navios-sonda, são necessários 38, dos quais só 12 podem ser fabricados no Brasil.
Mas a intenção das partes vai além dos negócios. Cristina defendeu que a aliança deve servir também para “captar outros mercados”, tese que Lula havia mencionado com entusiasmo no café-da-manhã.
A convergência terá conseqüências práticas imediatas: Paulo Skaf, presidente da Fiesp, anunciou que haverá missões empresariais conjuntas a terceiros países. E convidou Cristina para a “Semana da Argentina”, que a Fiesp organizará em março em São Paulo. Ofereceu até instalações para que ela despache do Brasil.
Natural, nesse cenário, que os dois governantes tenham sido carinhosos um com o outro. “Não é só afeto que nos une, mas uma visão comum sobre esse modelo de aliança produtiva, que permita aprofundar as transformações em ambos os países”, disse Cristina.
“Juntos seremos mais soberanos”, ecoou Lula para acrescentar: “Somados, somos 230 milhões [de habitantes], os únicos, fora os grandes países, a terem competitividade no setor agrícola”.
O comício sobre a integração foi além do aceno a uma futura moeda comum, do tipo que países da União Européia adotaram. Lula não escondeu a inveja da construção européia e fechou seu discurso com uma pergunta-desafio: “Nós ficamos olhando a beleza da União Européia e não somos capazes de construir a nossa?”.
O auditório explodiu em aplausos, mas ficou a dúvida se foi pelo sonho de integração ou uma frase de Lula que descreve à perfeição o momento difícil porque passa a Argentina, envolvida em uma guerra entre o governo e o setor rural: “Não devemos perder tempo brigando internamente, porque, quando brigamos internamente, sufocamos as possibilidades de crescimento do país”.
Fonte: Folha de São Paulo


Argentina leva Chávez sem aviso e frustra Lula

Agosto 5, 2008

Brasil chegou ao país vizinho com 300 empresários

Depois de desembarcar em Buenos Aires com a maior missão empresarial que o Brasil já levou à Argentina, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi surpreendido com um encontro trilateral com a presidente Cristina Kirchner e Hugo Chávez (Venezuela). A chegada de Chávez só deveria ocorrer hoje, quando ele e Cristina irão à Bolívia prestar solidariedade ao colega Evo Morales, afundado numa crise política interna. Lula queria discutir a redução da alíquota do trigo argentino e investimentos do BNDES.

REFAZENDO OS LAÇOS

Tango a três

Chávez participa de reunião de Lula e Cristina Kirchner e irrita delegação brasileira

Eliane Oliveira* e Janaína Figueiredo**

Oque poderia ter sido uma visita histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que desembarcou em Buenos Aires com a maior missão empresarial do Brasil na Argentina, foi encerrado com um encontro trilateral com os presidentes Cristina Kirchner e Hugo Chávez, da Venezuela. Chávez propôs uma agenda Buenos Aires-Brasília-Caracas, que inclua, por exemplo, um Trem do Sul e uma companhia aérea estatal, integrada pelos três países.

Segundo fontes da Casa Rosada e do governo brasileiro, a chegada do venezuelano estava prevista originalmente para hoje, no marco de uma viagem com Cristina à cidade boliviana de Tarija, onde ambos darão seu respaldo ao presidente Evo Morales, mergulhado numa delicada crise política interna. Ao ser informado sobre a reunião entre os presidentes de Brasil e Argentina, no fim da semana passada, Chávez decidiu pegar carona, atitude que irritou tanto o Itamaraty quanto o Planalto. A atmosfera de desorientação provocada pela presença inesperada de Chávez era tanta que, durante todo o dia ontem, funcionários do governo brasileiro não se atreviam a confirmar o encontro trilateral.

Após muitas idas e vindas, os três presidentes conversaram numa sala do Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina. Segundo fontes brasileiras, Lula estava se preparando para ir embora quando, finalmente, foi convencido por sua colega argentina a permanecer por mais alguns minutos e participar da reunião com Chávez.

Lula partiu sem fazer declarações. Já interlocutores do presidente venezuelano fizeram questão de revelar os assuntos tratados: Chávez defendeu a necessidade de relançar o projeto do Gasoduto do Sul, criar uma agenda trilateral e dar impulso a projetos ambiciosos, como uma linha ferroviária que una Buenos Aires e Caracas, passando pelo Brasil, e o lançamento de uma companhia aérea trinacional, na esteira da decisão argentina de reestatizar as Aerolíneas Argentinas.

Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, os três conversaram sobre fertilizantes e decidiram que o tema é prioritário na região, tendo em vista o encarecimento dos custos dos produtores. Amorim afirmou que Lula, Cristina e Chávez voltarão a se reunir no dia 6 de setembro, em Pernambuco, na inauguração de uma fábrica de energia eólica argentina:

- O presidente Lula já havia convidado a presidente Cristina Kirchner para participar das comemorações da Independência, mas ficou acertado que, na véspera, ela e o presidente Chávez se reunirão com o presidente Lula, em Pernambuco.

Ontem, ao abrirem o encontro empresarial “Argentina-Brasil: uma aliança produtiva chave”, que reuniu cerca de 400 empresários dos dois países, Cristina e Lula mencionaram o fracasso da Rodada de Doha, que teve como ponto forte as divergências entre brasileiros e argentinos sobre produtos industriais. Enquanto Lula propôs tentar acordos bilaterais, Cristina justificou a posição de seu país:

- Nas negociações multilaterais, temos que saber o que vamos receber e o que vamos dar. Não podemos afogar a Argentina e sua capacidade industrial.

Lula foi mais conciliador. Disse que Brasil e Argentina são a espinha dorsal da integração tanto do Mercosul quanto da América do Sul. Mas reconheceu que é preciso respeitar a soberania de cada país.

Brasil mantém aposta na Argentina

Ambos decidiram iniciar um projeto de desenvolvimento. Lula conclamou os argentinos a se unirem ao Brasil em busca de acordos bilaterais e anunciou sua confiança no governo de Cristina, que passa por seu pior momento, após quatro meses de crise com os produtores rurais do país:

- O Brasil continua a apostar na Argentina, em seus trabalhadores, em seus empresários e em seu governo.

Lula lembrou que o comércio em moeda local (peso ou real), que começa a funcionar no próximo mês, pode ser o “germe de uma futura integração monetária”. O presidente citou ainda a crise de alimentos no mundo, defendeu políticas comuns e disse que os dois países juntos têm condições de resolver o problema.

Lula convidou os empresários a investirem no Brasil, lembrando que, além do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prevê R$504 bilhões até 2010, há US$400 bilhões orçados pela indústria até 2012. E citou os 4,7 mil quilômetros de ferrovias a serem construídas no Brasil, um trem de alta velocidade que começa a ser licitado em novembro, duas refinarias, quatro siderúrgicas, projetos de reflorestamento para papel e celulose e uma indústria naval que exige a contratação, até 2014, de 200 navios:

- Queremos compartilhar essas possibilidades com a Argentina.

Os discursos de Lula e Cristina foram aplaudidos pelos empresários, mas também surgiram críticas, sobretudo à falta de regras claras na Argentina. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, disse que os empresários manterão os investimentos no país vizinho, mas ressaltou:

- É necessário, porém, a redução da burocracia.

(*) Enviada especial (**) Correspondente
Fonte: O Globo


O maior desafio ao comércio é o câmbio

Agosto 5, 2008

Estamos numa situação catastrófica em termos de câmbio, a cada dia que passa o desastre se aproxima mais depressa”
O ex-embaixador Rubens Ricupero, de 71 anos, negociador experiente em missões diplomáticas brasileiras nos anos 80 e 90, acredita que o maior desafio do comércio exterior brasileiro não estava em Genebra, mas bem aqui em solo nacional, na atual política cambial, que penaliza fortemente as exportações e pode conduzir o País ao colapso na balança comercial. Além da valorização do real, Ricupero prevê um período de relativa estagnação dos acordos bilateriais do Brasil no âmbito do Mercosul, devido às diferenças entre a pauta brasileira e a de seus parceiros, especialmente a Argentina.
Gazeta Mercantil – Como o senhor analisa o fracasso da rodada Doha?
Todos perdem. Índia e China, que bloquearam um avanço em agricultura, vão enfrentar uma atitude geral muito mais difícil em relação a concessões. O Brasil sai perdendo ainda mais, porque com interesse genuíno na agricultura, chegou a fazer grande sacrifício para viabilizar o acordo. A OMC sai bastante enfraquecida, o que não é do interesse de ninguém, pois é o único fórum de 153 países. O Brasil nunca teria ganho o caso do algodão contra os EUA ou o açúcar contra a UE se não houvesse um sistema do tipo da OMC.
Gazeta Mercantil – Agora, para o Brasil, a melhor alternativa é buscar acordos bilaterais?
Não acredito muito na existência de boas alternativas nem na multiplicação de acordos bilaterais. Os acordos vão continuar a ser tão difíceis como eram na OMC. Isto varia de país para país, mas no caso do Brasil, cujo interesse maior se concentra na agricultura, o fato de ser na OMC ou bilateral não vai alterar muito. Por exemplo, o Brasil não vai conseguir acesso mais fácil para os produtos agrícolas nos mercados da Índia e da China numa negociação bilateral. Estes países já mostraram claramente que não querem se abrir a uma competição além de níveis muito modestos. Também será muito difícil com os Estados Unidos e Europa, com os quais já estávamos negociando há muitos anos sem que tivesse havido muito avanço.
Gazeta Mercantil – Como devem ser os acordos no pós-Doha?
A posição brasileira fez com o que o país pudesse ser um pouco credor porque teve uma posição muito favorável, o fracasso não foi por nossa culpa e isto pode levar a alguma possibilidade de acordos estritos, concentrados em determinados produtos. Por exemplo, o caso do etanol. Estávamos negociando cotas com a Europa, havia até uma boa perspectiva. Acredito em acordos pontuais, específicos, não grandes acordos, de tipo acordo de comércio, porque aí o Brasil tem uma situação muito difícil por causa do Mercosul.
Gazeta Mercantil – Acordos bilateriais são viáveis com a proteção da Argentina ao setor industrial?
A rigor, pelo Mercosul, acordos bilaterais não são viáveis. O Mercosul é uma união aduaneira, algo muito mais ambicioso do que um acordo de livre comércio, porque na união aduaneira exige-se uma tarifa externa comum. O Brasil só poderia negociar com Argentina, Uruguai, Paraguai, porque todos têm de concordar. Não podemos dar uma concessão aos americanos em matéria eletrônica que não seja acompanhada pelos outros, isso fura a tarifa externa comum. Para poder negociar, é inevitável que se negocie em bloco, como estava se fazendo com a UE.
Gazeta Mercantil – Agora, para o Brasil, a melhor alternativa é buscar acordos bilaterais?
Não acredito muito na existência de boas alternativas nem na multiplicação de acordos bilaterais. Os acordos vão continuar a ser tão difíceis como eram na OMC. Isto varia de país para país, mas no caso do Brasil, cujo interesse maior se concentra na agricultura, o fato de ser na OMC ou bilateral não vai alterar muito. Por exemplo, o Brasil não vai conseguir acesso mais fácil para os produtos agrícolas nos mercados da Índia e da China numa negociação bilateral. Estes países já mostraram claramente que não querem se abrir a uma competição além de níveis muito modestos. Também será muito difícil com os Estados Unidos e Europa, com os quais já estávamos negociando há muitos anos sem que tivesse havido muito avanço.
Gazeta Mercantil – Como devem ser os acordos no pós-Doha?
A posição brasileira fez com o que o país pudesse ser um pouco credor porque teve uma posição muito favorável, o fracasso não foi por nossa culpa e isto pode levar a alguma possibilidade de acordos estritos, concentrados em determinados produtos. Por exemplo, o caso do etanol. Estávamos negociando cotas com a Europa, havia até uma boa perspectiva. Acredito em acordos pontuais, específicos, não grandes acordos, de tipo acordo de comércio, porque aí o Brasil tem uma situação muito difícil por causa do Mercosul.
Gazeta Mercantil – Acordos bilateriais são viáveis com a proteção da Argentina ao setor industrial?
A rigor, pelo Mercosul, acordos bilaterais não são viáveis. O Mercosul é uma união aduaneira, algo muito mais ambicioso do que um acordo de livre comércio, porque na união aduaneira exige-se uma tarifa externa comum. O Brasil só poderia negociar com Argentina, Uruguai, Paraguai, porque todos têm de concordar. Não podemos dar uma concessão aos americanos em matéria eletrônica que não seja acompanhada pelos outros, isso fura a tarifa externa comum. Para poder negociar, é inevitável que se negocie em bloco, como estava se fazendo com a UE.
Gazeta Mercantil – Acredita que o Brasil vai buscar as negociações com mais ênfase?
A única alternativa seria ou os parceiros do Mercosul acompanharem este desejo de uma abertura e aí o problema maior seria a Argentina por causa da proteção do setor industrial. O que deduzo em relação às declarações e à tendência conciliadora em relação à Venezuela é que não vai acontecer grande coisa. O governo deve procurar uma ou outra coisa, pode ser, uma cota para etanol, é possível. O Brasil já tem cotas de carne na UE, mas uma negociação abrangente, com um universo grande de produtos, que nós façamos concessões que, por exemplo, a Argentina não faça, eu não vejo isto acontecer.
Gazeta Mercantil – Qual seria uma boa estratégia daqui para a frente?
Para o Brasil não há uma solução, uma bala que mata o tigre, vai ter que somar. Por isso duvido muito da possibilidade de grandes negociações e de acordo de livre-comércio. Não acredito que o Brasil, sobretudo este governo que está no fim, vá romper com o Mercosul.
Gazeta Mercantil – Doha está sepultada?
Não, Doha não está encerrada. O que aconteceu agora não é sem precedente. Na rodada Uruguai houve um colapso igual, na conferência de Bruxelas, em 1990, que deveria ter terminado a rodada. Chegamos ao fim sem nenhum acordo, por causa da agricultura. A UE não quis fazer concessões, o Brasil e a Argentina e vários outros países latino-americanos não aceitaram que se avançasse em outras áreas e ela terminou sem nenhuma previsão de como retomaria. Na época eu era presidente do Conselho do GATT, e no ano seguinte fui eleito das partes contratantes do GATT. Quando voltamos para Genebra, ninguém sabia como retomar a coisa, na rodada Uruguai havia 15 grupos de negociação e o Conselho do GATT então me pediu formalmente para eu reorganizasse os grupos. Fiz conselhos e reduzi para algo perto de sete grupos, escolhemos novos presidentes e, aos poucos, as reuniões começaram de novo. Mas a rodada praticamente não avançou por dois anos. Retomada, até terminou bem alto com nível bem ambicioso de resultados. Agora não sei quanto tempo deve se passar até a próxima, mas não será imediata. Acredito que antes das eleições americanas e indianas vai ser difícil. Provável algo em 2010, 2011.
Gazeta Mercantil – Como fica o comércio exterior brasileiro?
A curto prazo não muda nada. Os efeitos de Doha só se concretizariam em 2013, 2014.
Gazeta Mercantil – Como devem se comportar as exportações neste segundo semestre, frente à continuidade da desvalorização do dólar?
O câmbio é incomparavelmente mais importante do que qualquer negociação comercial. Se for desfavorável, como é o nosso, mesmo que se abra oportunidades com as negociações, o câmbio vai impedir de aproveitar as oportunidades porque não dá preço. Para ter êxito com as exportações, um país precisa ter, por ordem de hierarquia: taxa de câmbio, ligeiramente desvalorizada, oferta diversificada em produtos e preços e oportunidades abertas pelas negociações. Se não há nem taxa de câmbio, nem oferta – afinal, pelo câmbio estamos cada vez mais exportando um grupo pequeno de produtos – não há acordo que possa salvar. Estamos numa situação catastrófica em termos de câmbio, a cada dia que passa o desastre se aproxima mais depressa. Para isto, as negociações não ajudam em nada.
Gazeta Mercantil – Por que o real, entre todas as moedas, foi a que mais se valorizou em relação ao dólar?
Por duas razões. De um lado, os juros, que aqui estão muito altos e atraem capital de fora que vem para ganhos a curto prazo. De outro lado, devido a esta política do Banco Central de estímulo à entrada de recursos, mesmo os especulativos de curto prazo. Assim aumenta a oferta de dólar, que fica mais barato e o real, mais caro. Isto está liquidando o comércio exterior brasileiro. O câmbio é o problema mais grave que o País enfrenta.
Gazeta Mercantil – Como vê os benefícios para o mercado interno?
O governo faz com a intenção de segurar a inflação aqui dentro. Mas provocará uma grande crise nas contas externas e, em algum momento, vai ter um ajuste que vai ser duro. O déficit em conta corrente vai crescer e pode ser estes capitais que estão entrando se assustem com o tamanho do déficit e comecem a sair, como aconteceu nos anos 90, antes da crise de 1998.
Gazeta Mercantil – E como se resolveria a questão?
Deveria haver controle de capitais. O Brasil deveria promover, através do aumento de impostos, o desestímulo ao ingresso de capitais especulativos de curto prazo. Acho que isto é fácil de fazer porque os instrumentos existem, não dependem de lei. Já que o governo gosta tanto de aumentar imposto, bastaria taxar os capitais especulativos estrangeiros. Mas isto a ortodoxia do Banco Central não permite nem discutir. A solução é esta, taxar fortemente o capital especulativo.
Gazeta Mercantil – Existe um patamar “ideal” na cotação tanto para ajudar no combate à inflação quanto para não prejudicar demais os exportadores?
É impossível citar um número definitivo. O problema é que o Brasil não usa esta possibilidade.
Gazeta Mercantil – Neste cenário, quem perde mais?
O comércio exterior, sobretudo os exportadores. Em geral, os produtos agrícolas que têm sua remuneração diminuída. Também a indústria, que sofre impacto mais direto porque já está sofrendo cada vez mais o ingresso do produto chinês, ou americano. Em algum momento esta dinâmica vai provocar aumento de desemprego.
Gazeta Mercantil – Como avalia a política de aumento da taxa Selic pelo Copom no combate à inflação?
O Copom está com a sensação de que está sozinho, que o resto do governo não está fazendo o que devia. De fato, este governo inchou a folha de pagamento, tem dado aumentos muitos grandes, aumentado os gastos correntes. A política monetária tenta segurar a inflação mas é anulada pela expansão contínua dos gastos do governo e pelo estímulo ao consumo.
Gazeta Mercantil – A balança comercial sustentada pelas commodities é perigosa?
É perigoso sim. Não há mal nenhum em ter uma excelente posição competitiva em commodities. Países como Austrália, Japão e Canadá também têm. Mas é preciso que não sejam só commodities, que elas alavanquem setores com maior valor agregado, sobretudo a indústria. Por causa do câmbio, o Brasil caminha para uma situação na qual sua competitividade depende de um número cada vez menor de produtos. E, no longo prazo, nem as commodities agüentam este câmbio.
Fonte: Gazeta Mercantil


OMC – O Mundo não se entende

Agosto 5, 2008

Doha entrou em colapso pela rigidez dos EUA, China, Índia e Argentina

0 plácido lago Léman, cujas margens abrigam a sede da Organização Mundial do Comércio (OMC,) ficou revolto neste verão em Genebra (Suíça). Pegou fogo a reta final da Rodada de Doha, iniciada em 2001. Novamente fracassou o acordo comercial global. A tendência de insucesso já havia sido antecipada por importantes negociadores ouvidos por CartaCapital na edição 495, de 14 de maio. Fracassou, sobretudo, por intransigência de índia, China e Argentina. Esses negociadores abandonaram o plenário na terça-feira 29, um atestado de óbito para a rodada. Mas também houve responsabilidade dos Estados Unidos, que cederam muito pouco na questão dos subsídios aos agricultores. Além disso, a própria pauta das discussões, por sua dimensão, era difícil de ser cumprida. Falha da OMC. Foi a crônica da morte anunciada.

Pareceu final de novela. A representante dos EUA, Susan Schwab, quase caiu em prantos. A comissária da União Européia, Mariann Fischer Boel, disse estar tristíssima com o desfecho. O chanceler brasileiro, Celso Amorim, foi tachado, por muitos analistas, de culpado por aceitar a proposta do diretor geral da OMC, Pascal Lamy, na sexta-feira 25, e supostamente virado as costas para os emergentes do G-20. Um exagero. Para ele, a rodada não será retomada a curto prazo e mencionou o ano de 2013 para outro encontro acontecer. No seu papel de maestro, Lamy prometeu “não jogar a toalha” e disse esperar a retomada das negociações em breve. Segundo avaliação dele, o acordo representaria uma economia de 130 bilhões de dólares por ano em tarifas.

Marco Marconini, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), falou á CartaCapital de Genebra. Segundo ele, índia, China e Argentina abandonaram o Brasil, e não o contrário. “Amorim foi pragmático. Se não aceitasse o pacote de Lamy, possivelmente Doha teria fracassado na sexta-feira 25″, afirma.
Aqueles emergentes insistiam em posições de difícil aprovação: as salvaguardas especiais, quando há um surto de importações de alimentos. O mecanismo foi criado no passado, para proteger os países pobres. “Índia e China queriam ter o direito de impor tarifas altíssimas se nos trìs anos anteriores à adoção das salvaguardas as importações superassem 10% da média. Na Rodada Uruguai (entre 1986 e 1994), foi fixado um porcentual de 40%”, explica o diretor da Fiesp. Ou seja, seria um gigantesco salto para trás.

Na avaliação de Marconini, o acordo seria ótimo para o setor industrial brasileiro. Além de abrir o mercado externo ao etanol, o pacote de Lamy previa uma diminuição média da tarifa de importações no Brasil de 12% em dez anos, algo “absolutamente razoável”. Com a intransigência dos demais emergentes, não houve chance de sobrevida. “Não teremos a redução dos subsídios europeus e americanos nem condições favoráveis à indústria, o que resultará em um comércio global distorcido. O pior dos mundos para nós”, sen-tencia o representante dos industriais paulistas.

Não é o fim dos tempos, segundo Pedro de Camargo Neto, da Associação da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs) e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira. No caso dos suínos, diz, há
mercado externo para os próximos quinze anos. Mas ele concorda que, por motivos políticos, o ministro do Comércio indiano, Kamal Nath, comportou-se como se o país tivesse a mesma dimensão econômica de Uganda ou Angola na questão das salvaguardas.

Os EUA também foram responsáveis pelo enterro de Doha, por diminuírem em apenas 500 milhões de dólares, para 14,5 bilhões de dólares, os subsídios destinados a agricultores. Nesse ponto, o Brasil falhou, opina Camargo Neto. Deveria ter pressionado os americanos a romper ao menos o piso de 13 bilhões de dólares. Desta forma, o representante da índia poderia chegar a seu país com a imagem de vitorioso, até porque há eleições gerais no início de 2009 e Nath tem inequívocas ambições políticas.
A questão fundamental é que haverá o aumento de contenciosos, as disputas entre países, que, a própria OMC terá de administrar. E o caso do algodão brasileiro e indiano versus o americano. Outro ponto de discórdia refere-se ás bananas exportadas por pequenos países caribenhos e latino-americanos. Dor de cabeça á vista, pois a organização parece não ter se dado conta de que mudou o eixo do poder. “Até a reunião de Cancún (2003), todos diziam amém para as posições dos EUA e da Europa”, diz Camargo Neto.

A OMC tem 153 integrantes com interesses muito diferentes. E um acordo, frise-se, só sairia se houvesse consenso absoluto. Cada país tem direito a um voto, sem distinção de poder econômico. Daí a confusão instalada desde o início da reunião ministerial, em 21 de julho, quando os titulares das Relações Exteriores de todo o mundo tentaram pôr os pingos nos is de suas demandas, após intenso trabalho de pesquisa e produção de documentos do staff de 630 funcionários da organização, além das equipes de apoio de cada nação, a simular uma espécie de balanço de perdas e ganhos.

“O fracasso nunca é definitivo”, afirma Simão Silber, professor de Economia Internacional da Universidade de São Paulo. Segundo ele, pode ser que os ministros retomem o diálogo em três meses ou em 2009. Para o especialista, houve várias falhas. Primeiro, o número de atores envolvidos, imenso, de 153 países. Em segundo lugar, a pauta ampla demais para haver um entendimento. Terceiro, as mudanças do mundo, para pior, e a crise econômica global. Por fim, a perda da “operacionalidade” da OMC.
“As duas últimas rodadas demoraram sete anos. É muito tempo. Os governos, os interlocutores e os congressos mudam”, pontua, ao lembrar que os parlamentares de cada nação têm de ratificar o combinado na OMC. “A agenda deveria ser mais enxuta”, opina. Silber considera ainda que o Brasil desempenhou um papel corretíssimo, ao se libertar de um compromisso “pífio” com China e índia. Quanto à postura da Argentina, o economista é taxativo: o comércio não interessa a Cristina Kirchner. Ela está preocupada com o mercado interno, uma espécie de confusão nacionalista que se instaurou no país vizinho.

Dois dias depois do colapso de Doha, Amorim insistiu que o Brasil não poderia se tornar refém do protecionismo argentino. Para ele, as divergências têm de ser resolvidas no âmbito do Mercosul. Na Costa Rica, o presidente Lula disse estar frustrado com o resultado. `Apesar da frustração das negociações na OMC, o Brasil seguirá empenhado na luta para a liberalização do comércio agrícola”, afirmou. Lula disse ainda esperar que os avanços alcançados durante as negociações sejam preservados. “É o que esperam os países mais pobres, que mais teriam a ganhar com um acordo”, afirmou, segundo a Agência Brasil.

O diretor de informação da OMC, Keith Rockwell, resume muito bem o problema. “A questão central de Doha foi a agricultura, apesar de esse setor responder por apenas 8% da exportação mundial: evidente que o tema segurança alimentar, com os preços das commodities em disparada, esteve por trás de toda a queda-de-braço. “Os países têm potenciais diferentes. Há muitas exceções. Não há solução do tipo one size fits all (um número cabe em todo)”, afirma.

Mesmo porque há uma questão básica de assimetria. Segundo a diretora da Divisão de Agricultura e Commodities da OMC, Anabel Gonzales, em média, no Primeiro Mundo, a agricultura é responsável por 15% dos empregos, enquanto na África, por 70%. Além disso, há a evidência concreta de que países emergentes gigantes, como China e índia, estão em franco processo de urbanização, com a natural sofisticação dos cardápios domésticos, em razão do aumento da renda per capita.

Em meio á balbúrdia instalada nos primeiros dias da Rodada de Doha, Lamy apresentou uma proposta com números da redução dos subsídios agrícolas dos países ricos e um esboço de concessão de abertura dos emergentes á importação de manufaturas. Ganhou aplausos do Primeiro Mundo e o apoio de Celso Amorim.
A reviravolta de postura ocorreu cinco dias depois de uma gafe diplomática de Amorim. Em que pese o fato de estar exausto, ele disse que o discur-so dos países ricos se assemelhava a uma frase célebre de Joseph Goebbels, o mentor da propaganda nazista na Alemanha. “Goebbels sempre dizia que, quando se repete uma mentira muitas vezes, ela se torna verdade”, afirmara – a declaração causou ainda mais atrito entre os integrantes da OMC e
provocou uma reação dura da representante americana, Susan Schwab. Mas o Brasil reviu sua posição.

Por fim, na ausência de um entendimento mundial, vão proliferar acordos bilaterais e regionais. A OMC permite a existência desses arranjos, desde que não firam o que foi acertado na organização. Segundo Arancha Gonzalez, chefe de gabinete de Lamy, há hoje cerca de 400 acordos bilaterais que convivem com as regras da organização nem sempre pacificamente. O incerto futuro vai tornar o cenário do comércio global ainda mais intrincado.

VOLTA AO TEMPO
A OMC teve origem no Gatt, criado em 1948, á época do FMI e Banco Mundial
A s raízes da OMC remontam a 1948, paradoxalmente em Havana. Antes, claro, da queda de Fulgencio Batista e da ascensão de Fidel Castro. A organização substituiu o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), criado á época do pós-guerra, como foram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco
Mundial. O objetivo era “criar solidez e cooperação internacional”, diz Joseph Bosh, porta-voz em espanhol da organização.

O Gatt bem ou mal funcionou até 1995, após o fracasso da Rodada Uruguai, que perdurou por sete anos. 0 mundo havia mudado, com a globalização já mostrando as garras, e se tornado muito mais complexo. Foi engendrada então a OMC, que teve início em Doha, Catar, em 2001, com o ambicioso lema de ser a Rodada do Milênio. As duas anteriores á que aconteceu em Genebra foram sediadas em Cancún (2003) e Hong Kong (2005). Sempre sob a égide do protesto e marcadas por pequenos avanços.

Um dos atributos da OMC é justamente supervisionar e policiar os acordos bilaterais, sobretudo em relação ao dumping (venda de produtos ou serviços abaixo do custo de produção). No entanto, só interfere se houver queixa da parte que se julga prejudicada. A partir de então, abrem-se os painéis, onde são resolvidos contenciosos. Esses têm autonomia para decidir sobre eventuais sanções, sempre com a ajuda técnica de especialistas internacionais.
Se tudo é tão democrático, por que é ignorado o embargo de Cuba pelos Estados Unidos? “Os dois países decidiram conviver com essa desavença. Uma espécie de acordo bélico informal. Só interessa aos dois e não há queixas de outros integrantes”, resume pragmaticamente Arancha. Da mesma forma, Peter Allgeier, embaixador americano na OMC, desdenhou a pergunta da repórter: “Não há nada emergencial nessa questão que exija uma mudança”. Em suma, parece que todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.
Fonte: Carta Capital


Brasil e Argentina se reúnem em bilateral de comércio

Agosto 5, 2008

O Comitê de Monitoramento do Comércio Bilateral Brasil-Argentina se reunirá amanhã (5/8), em Buenos Aires. A delegação brasileira será chefiada pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Ivan Ramalho, e o grupo argentino pelo secretário de Indústria da Argentina, Fernando Fraguío.

Na pauta do encontro, estão presentes temas como a análise do comércio bilateral; valoração aduaneira; linha branca, aerossóis, calçados, televisores, alho e vinho; defesa comercial; imposto de exportação para naftas, trigo e farinha de trigo; Grupo China e a proposta para o setor automotivo no Mercosul.

Intercâmbio Comercial
A corrente comercial entre Brasil e Argentina nos primeiros sete meses do ano foi de US$ 17,6 bilhões, com superávit de US$ 3 bilhões para o Brasil. Em 2007, nesse mesmo período, o fluxo foi de US$ 13,2 bilhões.

Neste período, o Brasil exportou para argentina US$ 10,353 bilhões, o que representou um crescimento de 35,8% em relação aos primeiros sete meses de 2007, cuja exportação foi de US$ 7,625 bilhões. Os principais produtos exportados foram automóveis de passageiros (15,2%); autopeças (7%); celulares (5,9%); veículos de carga (5,2%); e motores para veículos (4,1%).

Já as importações brasileiras provenientes da Argentina, de janeiro a julho, cresceram 31,3% em relação ao mesmo período do ano passado. No total, foram importados US$ 7,3 milhões, com destaque para automóveis de passageiros (17,2%); trigo em grão (11,1%); naftas (10,5%); veículos de carga (6,2%); e autopeças (5,7%).

Fonte: Agência Brasil