O Brasil mostra flexibilidade na negociação industrial na Rodada Doha, enquanto a Argentina é o único país que recusa o texto da negociação que está na mesa no momento. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o seu colega argentino, Jorge Taiana, se reuniram ontem cedo, mas oficialmente não teriam discutido a posição do Mercosul. O chefe do Departamento Econômico do Itamaraty, Carlos Marcio Cozandey, disse que na mesa de negociação entre os sete principais membros da Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil está defendendo sua posição nacional.
Sobre flexibilidades para a proteção de indústrias do Mercosul, a posição inicial do bloco era de 16% das linhas tarifárias. “Estamos em 14% de linhas tarifárias e 17% do valor de comércio”, afirmou Cozandey sobre a posição brasileira. Na prática, o Brasil deixa para a Argentina a responsabilidade de bloquear sozinha a negociação, se persistir na sua posição de não admitir o texto-base da negociação. A Argentina tem reiterado que o Brasil assinou e apresentou um texto na OMC pedindo proteção de 16%.
Para representantes da indústria brasileira que acompanham as discussões em Genebra, as posições do Mercosul nas negociações de Doha vêm sendo “fragilizadas” devido às resistências do governo e do setor privado argentinos. Eles vêm se recusando até a dizer se consideram uma boa base para as negociações o documento com propostas de redução de tarifas industriais que está sendo discutido a portas fechadas.
Os representantes das empresas e dos trabalhadores brasileiros têm um acesso privilegiado às discussões em Genebra: receberam credenciais de membros da delegação do Brasil, o que lhes dá permissão para transitar nos ambientes reservados e acompanhar de perto o desenrolar das negociações. Na avaliação deles, recebida, em Brasília, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Coalizão Empresarial, hoje será um “dia-chave” nas negociações, porque o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, deve apresentar um texto com propostas formuladas a partir dos debates da semana.
Os brasileiros constataram o grande mal-estar com a decisão de Lamy de reduzir o número de delegações selecionadas para formular uma proposta de acordo a ser apresentada ao plenário.
Na avaliação dos empresários, um eventual sucesso na Rodada Doha trará ganhos para o agronegócio brasileiro. O setor industrial está preocupado com as exigências de contrapartida feitas pelos países ricos, que desejam menos barreiras para produtos manufaturados. “É fundamental que os resultados sejam equilibrados”, diz nota interna da CNI, que reivindica empenho na redução de distorções das regras comerciais e cuidado para não inviabilizar a sobrevivência das empresas nacionais com uma abertura precipitada.
Já os 27 países da União Européia (UE) continuam a considerar “extrema” a demanda de flexibilidade do Brasil para proteger setores industriais e pediram para o comissário de Comércio, Peter Mandelson, continuar tentando arrancar abertura efetiva do país.
O Brasil mostra flexibilidade também sobre acordos setoriais, pelo qual serão eliminadas ou reduzidas as tarifas de determinado setor. Os Estados Unidos cobram participação dos emergentes em pelo menos dois grandes acordos setoriais para eliminar ou reduzir tarifas em certas áreas como preço por um acordo na rodada.
Amorim e a representante comercial americana, Susan Schwab, conduziram as discussões ontem, no grupo de sete membros, sobre os acordos setoriais. Enquanto Washington coloca esses acordos como precondição para fechar Doha, Amorim insistiu que a participação dos países em desenvolvimento deve ser voluntária.
À noite, estava em discussão uma linguagem de compromisso envolvendo engajamento dos países em reuniões setoriais. É o que certos analistas chamam de “voluntários obrigatórios”, com certa ironia. “Esse negócio de pressão comigo não funciona, mas vou ter flexibilidade para chegar a um acordo. Estamos vendo o que dá para fazer sem ferir o interesse da nossa indústria. Há limites”, afirmou Amorim.(AM, com Sergio Leo, de Brasília)
Fonte: Valor Econômico