De tempos em tempos, fala-se em uma suposta desindustrialização da economia brasileira, configurada pela redução da participação da indústria no PIB.
Recentemente, o tema voltou ao debate, em virtude da valorização do câmbio e dos eventuais impactos desse fenômeno sobre a competitividade da indústria brasileira. A chamada “doença holandesa”, causada pela alta dos preços das commodities, estaria fazendo o Brasil se especializar ainda mais em produtos primários, o que, no longo prazo, estaria levando o país a uma desindustrialização.
Originalmente, o conceito de desindustrialização diz respeito a alterações na estrutura produtiva dos países, na medida em que sua renda per capita avança. Países de renda muito baixa possuem maior participação dos setores primários na estrutura produtiva. Na medida em que a renda aumenta, cresce a participação da indústria; numa fase posterior, aumenta a participação dos serviços em detrimento da indústria.
Alguns analistas defendem que essa redução de participação da indústria se manifesta especialmente no emprego, mais do que na oferta global. Esse movimento, em certa medida natural no processo de desenvolvimento, seria causado por maiores taxas de crescimento da produtividade na indústria, o que deslocaria mão-de-obra para o setor terciário.
No caso da discussão sobre uma eventual desindustrialização no Brasil, alguns analistas argumentam que, em nossa economia, estaria havendo um movimento precoce de perda de participação da indústria no valor adicionado. Esse movimento não seria o resultado do desenvolvimento da economia, mas sim da perda de competitividade industrial.
Esse diagnóstico surgiu no final dos anos 80 e início dos 90, quando efetivamente a indústria perdeu participação no PIB de modo muito pronunciado. Nesse período, essa participação caiu de mais de 47% para cerca de 25% - isso em um cenário de baixo crescimento, instabilidade de preços e praticamente nenhum ganho de produtividade pela indústria.
A questão é se esse movimento tem acontecido atualmente fruto da alta nos preços de commodities e da valorização cambial. O que se percebe é que desde meados dos 90 a participação da indústria no PIB cresceu, chegando a mais de 30% em 2006 e a quase 29% em 2007.
Em 2007, a queda foi marginal e se deu em preços correntes. Se observarmos a variação real - em quantidade, não em valor - do valor adicionado a preços básicos da indústria (o PIB antes dos impostos), verifica-se outro movimento. Nos últimos quatro trimestres, o valor adicionado da indústria cresceu 5,7% e o da indústria de transformação 6%. Essas taxas foram maiores do que o crescimento da agropecuária e dos serviços (ambos cresceram 4,9%), e também que o valor adicionado total, que foi de 5,2%. Alguns economistas têm destacado um crescimento da participação das commodities na pauta exportadora brasileira e, a partir disso, detectado um sinal importante de desindustrialização.
Historicamente, as commodities representam uma parcela muito significativa das exportações brasileiras. Em um cenário de preços em alta, portanto, seria natural esperar um aumento da participação desses produtos na pauta. Isso ocorreu, de fato. Esses produtos eram 37% das nossas exportações em 2000 e ao final de 2007 representaram 41%. Por outro lado, os produtos de alta intensidade tecnológica reduziram sua participação, enquanto a dos produtos de média intensidade ficou constante.
A pergunta é: essas oscilações são suficientes para comprovar a tese da desindustrialização?
Aliado ao crescimento do PIB da indústria, o forte crescimento da produção industrial - de 6% ano passado - parece responder negativamente à questão. Ao contrário do que se poderia pensar, não são os setores industriais relacionados a commodities que estão crescendo mais. Nos últimos 24 meses, a produção dos setores industriais de alta e média-alta tecnologia cresceu 10% e 16%, respectivamente. No mesmo período, a produção dos setores de média-baixa e baixa tecnologia cresceu, respectivamente, 8% e 4%. Além disso, o crescimento industrial tem sido acompanhado por significativos ganhos de produtividade - mais de 4%, nos últimos 12 meses.
Mesmo em termos de emprego, não parece haver redução significativa da parcela da indústria. Nos últimos 12 meses, o número de empregos formais gerados na indústria de transformação cresceu a taxa muito próxima do emprego total. A propósito, alguns dos setores que mais cresceram são intensivos em tecnologia e não relacionados com commodities. Destacaram-se a indústria mecânica, de material de transporte e de equipamentos eletrônicos e de comunicações.
Esses indicadores parecem mostrar que, a despeito do desempenho externo, os setores mais intensivos em tecnologia têm apresentado um crescimento expressivo, impulsionado, em grande medida, pelo desempenho do mercado interno.
A percepção de que não há um processo de desindustrialização da economia brasileira é corroborada por recente trabalho do jornal Valor sobre um artigo de Fernando Ribeiro e Fernando Puga. Em seu estudo, os autores argumentaram que um eventual movimento de desindustrialização estaria restrito a apenas três setores, e ainda assim de forma parcial.
Em síntese, muito embora o câmbio represente efetivamente um desafio importante para a competitividade da indústria brasileira, ainda não há nenhum indicador forte o suficiente de que o Brasil esteja sendo vítima da “doença holandesa”. Tampouco se pode argumentar que há um processo de desindustrialização em curso na economia brasileira.
Miguel Jorge é ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
Fonte: Valor Econômico
