Está caindo muito o número de empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos. De janeiro a junho do ano passado, 6.256 empresas venderam produtos para o mercado norte-americano.
No mesmo período deste ano, o número delas caiu para 5.612 – ou seja, 644 empresas desistiram daquele mercado. A redução foi de 10,3%. Essa tendência de queda já vinha sendo observada há algum tempo, mas ganhou intensidade este ano.
Os dados são da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), órgão do Ministério do Desenvolvimento, e indicam perda de competitividade das empresas brasileiras no mercado americano. A principal explicação para o fenômeno é a forte valorização do real ante o dólar. Mas a atual desaceleração da economia dos Estados Unidos também aumenta as dificuldades para a colocação dos produtos brasileiros naquele mercado, explicaram os especialistas da área.
Ao mesmo tempo, aumentou em 860 o número de empresas que importam mercadorias dos Estados Unidos. De janeiro a junho do ano passado, 10.730 empresas brasileiras adquiriram produtos norte-americanos, enquanto nos primeiros seis meses de 2008 esse número subiu para 11.590, um incremento de 8%.
As compras brasileiras de produtos manufaturados norte-americanos cresceram 35,2% em valor e 9,1% em quantidade de janeiro a junho deste ano, em comparação com o mesmo período de 2007, segundo os dados da Secex. Os especialistas dizem que essa elevação está relacionada, principalmente, ao ciclo de fortes investimentos vivido pelo Brasil, com os empresários aproveitando o dólar barato para modernizar e ampliar as suas indústrias e iniciar novos empreendimentos.
No primeiro semestre deste ano, o valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceu 7,3%, em relação aos primeiros seis meses de 2007. Mas, em termos de quantidade exportada (medida em toneladas), houve uma queda de 12,3%. Ou seja, o valor exportado cresceu em virtude da elevação dos preços dos produtos.
O mais grave é que o valor das exportações de produtos manufaturados brasileiros para os Estados Unidos caiu 3% de janeiro a junho, em comparação com igual período do ano passado. Em termos de quantidade exportada, a redução foi de 19,5%. Os produtos manufaturados sempre tiveram uma grande participação no total das vendas brasileiras para o mercado norte-americano. Mas essa participação está caindo. De janeiro a junho de 2007, o valor das exportações de manufaturados representou 65,6% do total exportado pelo País. No mesmo período deste ano, a participação caiu para 59,3%.
Os Estados Unidos ainda são o principal mercado para os produtos brasileiros, embora esteja diminuindo de importância rapidamente. Em 2002, cerca de 25% das vendas externas brasileiras foram para o mercado norte-americano. No ano passado, apenas 15,6%.
De janeiro a junho, o saldo comercial entre os dois países foi favorável ao Brasil em US$ 1,54 bilhão (exportou mais do que importou). Mas, no mesmo período do ano passado, o saldo tinha sido de US$ 3,43 bilhões – ou seja, houve uma queda de 55,1%. Felizmente, as empresas brasileiras conseguiram encontrar outros mercados para os seus produtos e, por isso, a balança comercial brasileira ainda é superavitária.
Os dados sobre o comércio do Brasil com os Estados Unidos estão sendo usados por integrantes do governo para mostrar o efeito que a contínua valorização do real poderá ter sobre a balança comercial. Só um assunto preocupa o governo tanto quanto a inflação: é o crescente déficit nas contas externas.
No início deste ano, a previsão do Banco Central para o déficit em conta corrente (registra as saídas e as entradas de divisas com o comércio, os serviços e as transferências para o exterior) era de US$ 12 bilhões. Agora, o BC trabalha com uma estimativa de déficit de US$ 21 bilhões e a estimativa do mercado é de US$ 23,6 bilhões, de acordo com o último relatório Focus. Para 2009, as previsões do mercado superam US$ 32 bilhões.
O temor da equipe econômica de Lula é que ele possa entregar o País ao seu sucessor com uma grande vulnerabilidade externa. Até abril último, encontrar uma solução para o problema da valorização do câmbio chegou a ser prioridade número um do Palácio do Planalto. Mas, desde então, a inflação ganhou fôlego e passou a monopolizar corações e mentes.
O Fundo Soberano do Brasil (FSB) foi pensado, inicialmente, como um instrumento que ajudaria a conter a queda do dólar. Com o recrudescimento da inflação, no entanto, esse seu papel foi arquivado momentaneamente, pois o governo concluiu que não será possível conter a escalada interna dos preços e ao mesmo tempo desvalorizar o real. Para efeito da popularidade do presidente Lula e do próprio governo, combater a inflação é mais importante.
Por isso, o dinheiro que seria usado pelo FSB para adquirir dólares no mercado interno e melhorar a cotação do real foi utilizado para aumentar o superávit primário de 3,8% para 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) e, dessa forma, ajudar o Banco Central no combate à inflação.
Fonte: O Estado de São Paulo