Ministro Guido Mantega admite reduzir tarifas de produtos cujos preços estejam subindo e garante inflação dentro da margem de tolerância da meta. Novas desonerações também não são descartadasRicardo Miranda
Da equipe do Correio
Rio de Janeiro — O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reforçou ontem que uma disparada dos preços é o grande temor da área econômica do governo e, mesmo afirmando que a inflação continua “comportada”, admitiu que pode reduzir taxas de importação ou desonerar mais produtos que sofrem pressões de alta. “Se houver produtos cujos preços estejam subindo, nós podemos reduzir tarifas de importação. Nós reduzimos a Cide (Contribuição de Intervenção sobre Domínio Econômico) porque o combustível subiu. Uma maneira também é fazer desonerações como a do trigo, do diesel e da gasolina em outros setores”, ameaçou Mantega.
O ministro insistiu que “inflação não se combate com um único instrumento”, rechaçando a lógica de que será inevitável uma dose mais forte de juros. “Se o problema é de oferta de produtos agrícolas, nós aumentamos a oferta”, disse Mantega. Produtos da cesta básica, lembrou, já estão desonerados. Essas medidas seriam necessárias, explicou, para evitar que as commodities em alta no mercado internacional contaminassem outros produtos, gerando um ciclo vicioso.
Mantega, que participou ontem do segundo dia de debates no 20º fórum do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), na sede do BNDES, no Rio, diz que não existe possibilidade de a inflação fugir à “margem de tolerância” das metas do governo. E disse que, muito pouco pode ser feito além das medidas já tomada, pois trata-se de um “choque de commodities” internacional, especialmente alimentos, ferro, alumínio, petróleo e derivados.
Resposta à crise
Segundo ele, o Brasil tem respondido a essa “crise inflacionária internacional” melhor do que outros países e ainda pode se salvaguardar para o futuro por ter a maior área agricultável do mundo, com disponibilidade e potencial para expandir fortemente o cultivo de grãos e oleaginosas, de forma que a oferta possa atender simultaneamente a crescente demanda nas áreas de alimentos e biocombustíveis. Conforme dados da Embrapa e do IBGE, dos 350 milhões de hectares agricultáveis do país, apenas 59 milhões são utilizados para o cultivo de lavouras. “O Brasil pode expandir a produção de alimentos indefinidamente”, disse Mantega.
“Depois da crise financeira norte-americana, a economia brasileira está sendo novamente posta à prova com esse choque de commodities. Mas continuamos frustrando a velha tradição do país inflacionário, discursou o ministro, diante de uma platéia de empresários, investidores e economistas, e ao lado da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Segundo ele, a inflação dos alimentos, nos últimos 12 meses, foi de 12,5%, mas a “inflação interna do Brasil, estrutural”, não passa dos 3%. “O resto vem de fora, foge ao nosso controle”, explicou. Mantega avaliou que a disparada dos preços dos alimentos está chegando ao teto, mas ainda há o impacto do petróleo e derivados e outras commodities.
Bons indicadores
Em sua apresentação, Mantega mostrou os bons indicadores da economia, elogiou a “robusteza fiscal” do país e fez um discurso otimista, afirmando que “o Brasil tem jeito”, passou de coadjuvante a protagonista no mercado internacional” e tornou realidade o “mercado de massas”, redistribuindo renda e criando uma nova classe média. A chamada classe de renda C subiu desde 2002 de 32% para 49% do total, ou seja, quase metade da população consumidora.
O ministro disse ainda que o país vive uma “revolução do crédito”, com o volume de operações caminhando para alcançar 40% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano. Em abril, último dado disponível e divulgado ontem, o crédito estava em 36,1%, contra 22% em 2002. Hoje o país soma R$ 1 trilhão em crédito. Ao comentar o crescimento da produtividade do brasileiro acima mesmo dos salários, Mantega mandou um recado: “Ninguém pode mais dizer que aumento de salário é inflacionário”, disse. Ao quase levar um tombo durante uma entrevista, Mantega mostrou que o humor também está em alta. “Estão querendo me derrubar, hein”, brincou.
Medida terá pouco efeito
Ricardo Allan
Da equipe do Correio
Economistas ouvidos pelo Correio receberam a idéia de diminuir a tarifa de importação de alguns produtos para combater a inflação como um mero aceno do governo de que está de fato preocupado com a escalada de preços. Os especialistas, porém, não acreditam que a medida venha a ser de fato implantada, principalmente porque seria ineficaz para amenizar o atual surto inflacionário. Uma redução no imposto teria um efeito insignificante e demoraria muito para ser sentido no bolso dos consumidores.
“A inflação atual é mais complexa. O aumento de preços de matérias-primas, alimentos e commodities minerais é um fenômeno mundial. Diminuir a tarifa não resolveria nada”, afirma o consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Sergio Gomes de Almeida. A medida seria facilmente neutralizada pela alta das cotações desses produtos. Além disso, as tarifas já estão baixas, chegando a zero para os principais tipos de aço, por exemplo.
Na avaliação de Almeida, ex-secretário de Política Econômica, o governo precisaria elaborar um verdadeiro pacote antiinflacionário para atacar o problema, com uma maior coordenação entre as políticas monetária, fiscal e de crédito. Em outras palavras, não adianta aumentar a taxa básica de juros (Selic) se o governo não puser um freio nos seus gastos, aumentar a meta de superávit primário (economia para pagar a dívida pública) e fechar um pouco a torneira do crédito abundante. “Isoladamente, qualquer medida terá eficácia duvidosa.”
Também para o economista Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, o impacto de uma redução de tarifas seria “bastante discreto”. A maior parte dos produtos alimentícios mais básicos já está submetida a um Imposto de Importação (II) pequeno, da mesma forma que são desonerados dos tributos internos. Para Silveira, o governo tem mesmo que esperar que os preços no mercado internacional refluam, o que começou a ocorrer em alguns itens, como soja, açúcar e café.
“O mundo todo é refém dessa alta em decorrência do aumento da demanda por alimentos. O Brasil não é exceção”, diz. Silveira também receita como principal medida para combater a inflação cortes nos gastos públicos e aumento do superávit primário, o que ajudaria a conter a demanda interna. Uma medida pontual seria a desoneração de produtos alimentícios industrializados.
A economista Marcela Prada, da consultoria Tendências, acredita que a principal ação para combater a alta de preços deve ser mesmo a elevação dos juros pelo Banco Central.Num ambiente de economia aquecida, a inflação de commodities se transfere rapidamente para os preços ao consumidor. “O governo está identificando as pressões e atuando ponto a ponto, como fez com a gasolina e o trigo. Reduzir tarifas pode até ter um efeito pequeno em alguns preços, mas não adianta nada se as cotações continuarem subindo lá fora”, diz.
Fonte: Correio Braziliense