Exportadores temem queda excessiva do dólar

Analistas do mercado não mudam suas projeções para o câmbio: déficit externo poderia evitar apreciação do real
Comemorada por empresários, economistas e pelo governo, o grau de investimento trouxe um sinal de alerta para a indústria exportadora. Teme-se que, com a chancela de ser considerado um país de risco baixo, o Brasil atraia volumes gigantescos de investimentos, derrubando ainda mais o dólar, cuja cotação já vem prejudicando as exportações de produtos manufaturados. Mas, para economistas e analistas de mercado, os efeitos sobre o câmbio tendem a ser apenas de curto prazo. O cenário básico para a taxa do dólar não foi alterado.
- Em países que passaram pelo grau de investimento, houve apreciação cambial a curto prazo e isso pode prejudicar a balança comercial brasileira. Mas acredito que, a médio prazo, o dólar voltará a subir no Brasil, porque o país está com déficit em conta corrente (trocas de recursos com o resto do mundo) - diz Luís Afonso Lima, presidente da Sobeet, entidade que reúne empresas transnacionais.

“Estrangeiros vão se beneficiar duplamente”
A LCA Consultores não alterou sua previsão para o câmbio: de R$1,60 no fim do ano e R$1,55 em dezembro de 2009. Pedro Bastos, principal executivo do HSBC Investment no país, também não mudou as projeções.
- O investment grade reforça uma expectativa que já tínhamos de maior estabilidade para a moeda até o fim do ano.
Mas os exportadores estão apreensivos. O vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro, lembra que a balança comercial brasileira tem sido sustentada pela alta das commodities. As vendas de manufaturados estão perdendo fôlego com o real apreciado.
- Para o país, o grau de investimento é ótima notícia. Mas, para o investidor do setor produtivo, o país ficará mais caro e mais difícil para exportar manufaturados. Com juros elevadíssimos e, agora, o grau de investimento, o dólar vai derreter - diz Castro.
Alexandre Horstmann, diretor de gestão da Meta Asset Management, lembra que o Brasil é o primeiro país a receber o investment grade com a maior taxa de juro real do mundo:
- No clube dos bons pagadores, os estrangeiros vão se beneficiar duplamente. Além do menor risco para investir, vão lucrar em cima dos juros.
Economista-chefe para América Latina do ABN Amro e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman discorda. Ele lembra que o perfil dos investidores que exigem o grau de investimento é diferente daqueles que buscam o diferencial de juros. Agora, o país deve atrair fundos mais conservadores. Por outro lado, alguns investidores mais agressivos, que tipicamente querem lucrar com juros altos, poderão sair do país, porque já aplicaram aqui à espera do grau de investimento e, agora, embolsariam seus lucros.
Schwartsman acredita ainda que, em termos de fluxos de dólares, a grande diferença virá não nas aplicações financeiras, e sim nos investimentos estrangeiros produtivos.
- Muitas empresas têm restrições para investir em países sem grau de investimento - diz o economista, que também não se preocupa com o déficit em conta corrente do país: - Diferentemente do que ocorria no passado, hoje há disposição do mundo em financiar o Brasil.
COLABORARAM: Bruno Rosa e Juliana Rangel
Fonte: O Globo

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