Vicente Nunes,Da equipe do Correio
A reação do presidente Lula, ao saber da classificação do Brasil como país seguro para receber investimentos internacionais, traduz a euforia no mercado financeiro. Bolsa fechou em alta de 6,3%
Especialistas não esperavam por uma notícia como essa antes do segundo semestre do ano. Daí por que a decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s, de elevar o Brasil à condição de grau de investimento (investment grade), pegou todo mundo de surpresa. Na prática, significa que o país deixou para trás a péssima fama de caloteiro e ingressou no seleto clube das nações consideradas seguras para o capital externo. A medida, que abre as portas do país para os trilhões de dólares administrados pelos grandes fundos de pensão do mundo, provocou euforia no mercado financeiro. A Bolsa de São Paulo fechou em alta de 6,3%. E deixou o presidente Lula em êxtase. “Passamos a ser merecedores da confiança internacional”, comemorou. Para reforçar o otimismo, o governo anunciou ontem que, pela primeira vez num trimestre, o Brasil conseguiu pagar os encargos da dívida pública e ainda fechou o caixa com sobras de mais de R$ 3 bilhões.
Brasil alcança a elite
Grau de investimento abre as portas do país para trilhões de dólares administrados por fundos de pensão mundiais
A agência de classificação de risco Standard & Poor´s surpreendeu o mercado ontem e elevou o Brasil à condição de grau de investimento (investment grade). Com isso, o país entrou para um seleto grupo de nações consideradas portos seguros para o capital. A maioria dos especialistas esperava por essa chancela apenas no segundo semestre do ano. A S&P creditou a decisão aos “grandes avanços da economia brasileira”, que entrou em uma rota de crescimento sustentado, está combatendo de forma veemente a inflação, tornou-se credora internacional e vem corrigindo uma de suas principais vulnerabilidades, a relação entre a dívida interna e o Produto Interno Bruto (PIB), que fechou março em 41,2%, depois de encostar nos 60% em 2002.
A medida, que abre as portas para os trilhões de dólares administrados pelos grandes fundos de pensão do mundo e deve ser endossada em breve por outra agência, a Fitch Ratings, provocou euforia nos mercados financeiros — a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) registrou alta de 6,3% (leia texto na página 14) — e deixou o governo em estado de êxtase. Assim que soube da notícia, o presidente Lula afirmou: “Se a gente for traduzir isso para uma linguagem que os brasileiros entendem, o Brasil foi declarado um país sério, que tem política sérias, que cuida das suas finanças com seriedade e, com isso, passamos a ser merecedores da confiança internacional”.
Lula ressaltou que há pessoas preocupadas com a possibilidade de o grau de investimento derrubar ainda mais o dólar, mas considerou a decisão da S&P excelente. “Confesso a vocês que, quando saí de Garanhuns (PE), em 1952, jamais imaginei que pudesse chegar o dia em que os brasileiros passassem a ter preocupações com o ingresso de dólar no país. Quis Deus que fosse exatamente no momento em que um presidente de sorte assumisse a presidência da República”, afirmou. Para Lula, o grau de investimento é “o aval de que passamos a ser donos do nosso nariz e podemos determinar a política que acharmos conveniente para o Brasil”. Na avaliação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o grau de investimento atrairá mais recursos para o aumento da produção, garantindo a sustentabilidade do robusto crescimento do país.
Caloteiro contumaz
O grau de investimentos tem várias implicações para o Brasil. Primeiro, porque enterra de vez o histórico de caloteiro contumaz do país. Segundo, porque reduz o custo dos empréstimos no exterior para o governo e as empresas. Terceiro: dará um alívio considerável nas contas externas, que vêm registrando déficits crescentes, devido ao forte aumento das importações e das remessas de lucros e dividendos. Como o fluxo de dólares tenderá a ser mais consistente e contínuo, o país não terá problemas para financiar os rombos. Também não haverá risco de disparada dos preços do dólar, como se esboçou anteontem, quando o BC divulgou um buraco nas contas maior do que o esperado para o primeiro trimestre (US$ 10,7 bilhões). Agora, há quem veja a moeda americana cotada abaixo de R$ 1,60.
Segundo Lisa Schineller, analista-chefe para a América Latina da S&P, “o grau de investimento reflete a maturidade institucional do Brasil e de suas políticas”. Ela destacou que o país consolidou a estabilidade econômica, que permitiu a retomada dos investimentos produtivos, o aumento do emprego formal e a consolidação de expressivo mercado de consumo. Para Lisa, a crise internacional provocada pelo estouro da bolha imobiliária americana foi fundamental para mostrar o quanto o Brasil está melhor preparado para enfrentar choques externos. O país praticamente não sentiu os solavancos que abalaram o mundo e se manteve atrativo para os investidores estrangeiros, que aportaram US$ 12,4 bilhões nos primeiros quatro meses do ano no setor produtivo.
A analista destacou ainda a autonomia e o firme compromisso do BC no combate à inflação, ao contrário de outros países que relaxaram ou abandonaram os sistemas de metas, devido à disparada dos preços dos alimentos e da energia, imunes à política de juros. Outro ponto ressaltado por Lisa foi a manutenção do superávit primário (economia para o pagamento de juros) em 3,8% do PIB, apesar do fim das receitas com a CPMF. “Não há dúvidas de que todos esses pontos são importantes e merecem ser ressaltados”, acrescentou Jankiel Santos, economista-chefe do Banco BES Investimentos. “Mas o governo não pode deitar em berço esplêndido. Para que o país realmente cresça de forma robusta e dinâmica, é preciso fazer as reformas adiadas, como a tributária e a trabalhista”, assinalou.
Inflação e juros
No entender do economista-chefe da SLW Asset Management, Carlos Thadeu Filho, também não se deve esperar alívio na inflação a curto prazo. “Mesmo que o dólar caia, com o maior fluxo de recursos para o país, as pressões dos alimentos vão continuar. O BC continuará aumentando os juros, até que se sinta confortável com o comportamento dos índices. Mas talvez, o BC não seja obrigado a estender o aperto monetário, como se vinha falando”, afirmou.
Para Luís Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, é preciso lembrar que a entrada do Brasil no circuito dos grandes fundos de pensão não se dará de forma imediata. Pelo regulamento dessas instituições, elas só podem destinar recursos para países cujo grau de investimento tenha sido ratificado por duas agências de risco. E, por enquanto, somente a S&P deu seu aval. E mais: mesmo sendo o Brasil merecedor da chancela de porto seguro para o capital, não se pode esquecer que as empresas de rating perderam boa parte da credibilidade ao classificarem como risco zero as operações imobiliárias de alto risco nos Estados Unidos.
Fonte: Correio Braziliens