OMC - Doha está perto de grande fracasso, diz Mandelson

Março 3, 2008

Representante europeu quer acordo entre países negociadores antes da eleição presidencial nos EUA.

     A negociação entre os países da Organização Mundial do Comércio (OMC) para avançar na liberalização do comércio mundial corre “grande risco de fracassar”, advertiu ontem o comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, que pediu um acordo antes da eleição do novo presidente americano. “Temo que Doha possa fracassar, o primeiro fracasso de uma rodada comercial multilateral.”

      Em discurso em Lesoto, divulgado em Bruxelas, Mandelson afirmou que a Rodada Doha fracassará se os negociadores não forem capazes de restabelecer o equilíbrio entre os diferentes capítulos e conseguir um consenso antes que o presidente americano, George W. Bush, deixe a Casa Branca em janeiro.

      Sean Spicer, porta-voz da representante para o Comércio dos Estados Unidos, Susan Schwab, disse que os principais negociadores americanos “têm falado repetidamente, nos últimos meses, sobre a importância de se chegar a um acordo”.

      Diante dos ministros de Comércio do grupo de Países Menos Desenvolvidos (LDCs, em inglês), o britânico lembrou que as economias pobres são as que mais têm a perder se a chamada “rodada do desenvolvimento” não for concluída.

      Em relação ao papel da União Européia na discussão, Mandelson afirmou que quer fazer uma contribuição construtiva, mas esclareceu: “Não vamos pedir a outros países mais do que podem fazer, nem nos conformaremos com menos do que podem ceder”.

      Ele insistiu em que o acordo final não pode representar um passo atrás nos compromissos já colocados sobre a mesa em relação a acesso ao mercado em agricultura, bens industriais e serviços.

      O comissário considerou urgente alcançar um acordo enquanto os preços agrícolas se mantêm elevados e destacou que, no atual contexto de incerteza econômica, seria um sinal claro contra as tentações protecionistas.

      O fracasso da negociação demonstraria, segundo ele, que a comunidade internacional não é capaz de tomar decisões no âmbito da governança global, “um sinal nefasto” em um momento em que se buscam acordos em mudança climática e fluxos financeiros.

      Mandelson lembrou aos LDCs que a liberalização comercial os ajudará a entrar nos mercados em expansão das economias mais dinâmicas, algo que é muito mais efetivo que a ajuda direta ao desenvolvimento.

      Ele garantiu que pedirá a outros países desenvolvidos e em desenvolvimento que ofereçam aos LDCs acesso a seus mercados livres de cotas, como a União Européia já faz.

      A OMC organizou para abril uma reunião ministerial para que se tente chegar a um acordo. Mas as esperanças de que esse objetivo seja atingido parecem ser pequenas para o diplomata neozelandês responsável pela cadeira de Agricultura na OMC, Crawford Falconer. “Do jeito que as coisas estão indo, vamos precisar de um milagre.”

      Publicada em 01/03/2008. Fonte: Agências Internacionais / O Estado de São Paulo


Real forte obriga empresa a se adaptar

Março 3, 2008

Para sobreviver com câmbio desfavorável, exportador busca mercados não explorados e importa insumos e máquinas. Especialistas divergem sobre como conter a trajetória de alta do real sem mudar as regras do jogo e causar estragos à economia.

     Se o país não quebra com a moeda em seu maior valor real desde 1980 e os economistas não sabem como impedir a trajetória de apreciação do real sem mudar as regras do jogo, alguns exportadores deixaram de fazer coro pedindo uma desvalorização e aprenderam a fazer negócios mesmo com uma taxa de câmbio desfavorável.

      Para o consultor Emilio Garofalo, ex-diretor do BC, a maioria dos exportadores se adaptou ao cenário de moeda forte, problema crônico dos principais países emergentes concorrentes, com exceção da China, que tem câmbio fixo.

      “Em vez de ficar reclamando do câmbio, o exportador pensou: “Como uso essa taxa a meu favor?” Viu que pode pegar um financiamento mais barato [no exterior] e importar insumos e máquinas. Os calçadistas importam até o revestimento interno do sapato”, disse.

      O presidente da Abracomex (Associação Brasileira de Comércio Exterior), Primo Roberto Segatto, concorda e cita o exemplo dos calçadistas brasileiros que encontraram um nicho para exportar sapatos com qualidade superior aos produtos chineses, mas inferior aos italianos. “A indústria de calçados tentava competir com a China, mas não conseguia. Também não tinha a qualidade da Itália. Estamos no meio: pegamos uma classe média que demanda produtos mais sofisticados, mas não quer o preço da Itália. O caminho é procurar se diferenciar e agregar algo de que o mercado precisa. Aí está o crescimento das exportações, que permite sobreviver com um câmbio desses”, disse.

      Para Octávio de Barros, diretor de pesquisa do Bradesco, a competitividade tem de ser buscada “fora dos portões das fábricas”. “A busca está nas reformas que reduzem os custos de transação que infernizam a vida das empresas.”

      O ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, que pilotou uma desvalorização em 1987, defende a tese de que a valorização do real decorre da combinação da entrada, “a rodo”, de capital com o que chama de “doença holandesa” -derivada da exportação de um recurso natural ou humano com preços mais baixos do que no restante do mundo e que inibe o desenvolvimento de outros setores no país. Cita como exemplos os exportadores de petróleo.

      “Para neutralizar, coloca-se um imposto sobre a exportação, de modo que a produção deixa de ser rentável a uma taxa de câmbio alta. O câmbio se deprecia e permite a competitividade dos demais setores. Para diminuir a entrada a rodo de capitais, tem de comprar reservas -como o governo está fazendo. Quando não basta, controla a entrada de capital.”

      O ex-ministro Mailson da Nóbrega vê medidas como controle de capitais ou tributação de exportação como um “retrocesso injustificável”. “Tenderiam a depreciar a moeda, menos pelos seus efeitos nos fluxos e mais pelo que gerariam de perda de confiança no país. O dano para a economia e a sociedade seria enorme”, disse.

      Para Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, a discussão da sobrevalorização do real não pode ser feita sem considerar o funcionamento da economia. Ele afirma que a sobrevalorização seria percebida por duas distorções: um desequilíbrio nas contas externas ou uma contração na demanda. “Não é o caso. O déficit [externo] é pequeno e a demanda está aquecida. Em 1999, havia déficit e demanda retraída.”

      Fernando Cardim, da UFRJ, defende a redução dos juros como medida para conter a escalada do real. “A regulação da conta de capitais, a redução dos juros e a intervenção no câmbio permitiriam a sustentabilidade das contas externas.”

Fonte: Folha de São Paulo